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A mostrar mensagens de Maio, 2017

Bela porcaria

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- Já te disse! Responde-me! E ela encolhia-se perante uma ira que não conseguia aplacar. - Quem te fez mal? O que se passou? Como explicar? Ninguém lhe tinha feito mal. Ou se sim, era um mal tão antigo que não lembrava mais. Talvez ainda no outro lado do tempo. O que se tinha passado? Sabia lá. Era assim. Porque é que ninguém a aceitava assim? Queriam saber sempre porquê, porque não. - Vamos! Então? Então nada. Permanecia calada. Dos outros tudo acatava, Recebia-os tal como vinham. Nunca forçava ninguém a ser o que não era. Com ela… Pois, está bem. - Eu vou. Não tenho paciência. Tudo porque ela chorara… Também, porque chorara? Devia saber. Lágrimas angustiam quem as vê. Chorara. Porque chorara? Era assim. Ela era assim. Deixa-o ir. Para que o havia de querer, Se nem chorar podia? Todos iguais. Bela porcaria.

As Mulheres são lindas!!....

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As mulheres estão muito mais bonitas. Andam com uma elegância descomprometida, olham de frente para os desafios da vida. Usam roupas de que gostam, e não roupas de figurino. Têm cabeleiras coloridas, curtas, compridas. Riem, falam alto, contam anedotas. Divertem-se. Tomam a iniciativa, ousam, dão todos os passos em frente. Têm unhas de gata pintada, ou unhas curtas sem nada. Não esperam, abrem os seus caminhos. São independentes e aventureiras. Tratam os homens como seus iguais. Valorizam-se, e não temem as demais. As mulheres estão tão bonitas! Nestes dias que vivemos, É  bom ser  mulher no meio das mulheres.

Nómadas no deserto

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Todos nós temos um lugar secreto, que é só nosso, e não queremos partilhar com ninguém. Receamos que se o expusermos, se conspurque, se perca, se desvirtue. Ocasionalmente encontramos um estranho no nosso lugar secreto.
De início não nos sentimos à vontade, e desejamos que ele parta, e vá embora. Mas com o passar do tempo, a convivência com o invasor, torna-se menos penosa, e nalguns casos até agradável. Baixamos as defesas e começamos a integrar o estrangeiro na nossa vida. É como se ele começasse a fazer parte do cenário idílico que era a nossa privacidade. Acabamos por acreditar que a chegada dele foi de certa forma positiva. Consideramos a sorte que tivemos em que tenha sido esta, e não outra pessoa a descobrir o nosso porto seguro.
Por vezes descobrimos que afinal o receio estava certo. Outras vezes mantemos a satisfação de ter o estranho por perto. Mas todo o ser humano ama o secreto. E é um instante enquanto inventamos outro paraíso.
Se os homens não teimassem em invadir fronteiras, Haveriam…

Sombras na vidraça

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Fechou a porta atrás da última pessoa que saiu. Finalmente estava sozinha. Tinham-na felicitado, questionado. Tinham-se interessado em saber como fora capaz. Disseram-lhe que outra no seu lugar estaria destruída. Mostraram-lhe estatísticas, e estudos científicos. Não havia dúvida. O embate com alguém tão destrutivo era sempre fatal. Ela sobrevivera. Como? Não sabia. Ou sabia…
Havia apenas uma situação em que a vitima saía ilesa da relação com um psicopata. Apenas uma. Tal como os cães não se comem uns aos outros, os psicopatas não se atacam entre si. Sentia o mal a circular-lhe nas entranhas, misturado no sangue e no pus dos pensamentos. Apenas uma maneira de escapar. E ela conseguira. Como conseguira? Não sabia. Ou sabia…
Criaturas da noite… Cruzam-se, cheiram-se. Ignoram-se, ou acasalam em coitos danados. A sombra de um sorriso maléfico desenhou-se-lhe no rosto. Afinal tinha vencido. Ou será que ele a tinha convencido de que era assim? Não sabia. Ou sabia…
As ideias martelavam-lhe o cérebro, Dizem que ainda sorr…

Oração dos meninos perdidos

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Eu tenho um anjo da guarda. Sei que tenho.
Tem-me protegido em todas as situações difíceis da vida!
Esteve comigo quando a minha mãe morreu. Deu-me a mão quando ensaiei os primeiros voos, fora da gaiola pendurada na caverna.
Desviou das minhas veias seringas infectadas, E selou os meus pulmões a fumos intoxicantes. Tornou-me imune a comportamentos viciantes. Fechou as minhas pernas quando eu teimava em as abrir, Secou as minhas entranhas a sementes estranhas.
Embalou o meu choro de adolescente. O meu anjo da guarda…
Quando me julgava sozinha, Ele velava por mim. Melhor do que qualquer mãe terrestre. Mais compassivo do que qualquer pai humano.
Colocou no meu caminho boas pessoas. Iluminou o meu coração quando eu teimava em chafurdar nas trevas. Lavou a minha alma quando eu a enchi de lama.
Levou para longe os seres do mal que pretendiam ser de luz. Mesmo quando eu suplicava para os ter comigo. O meu anjo da guarda…
Sou pobre, tão pobre! Nada tenho de meu neste mundo tão grande. Nem terra, nem lar, nem um chão …

Os meninos de alguém

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Todos fomos os bebés de alguém. Todos fomos pequeninos e amorosos. Em nós albergavam-se  as promessas do mundo, Nos  olhos inocentes guardávamos a candura, e a pureza.
Alguém se inclinou sobre o nosso berço sorrindo. Alguém pensou que éramos os mais lindos, os mais perfeitos. Até os que não tiveram nem pai, nem mãe, Foram os meninos de alguém.
Quando vimos as fotografias antigas dos tempos de pequeninos, As lágrimas assomam aos nossos olhos míopes de tanto pensar. Mentimos quando dizemos que choramos com saudades, Que temos falta dos que partiram. Choramos com pena de nós mesmos. Choramos porque perdemos aquela expressão no olhar. Ficamos tristes porque nos prostituímos a cada dia que passou, E queremos saber o caminho de volta, e o caminho secou.
Todos fomos os bebés de alguém. Até os que não tiveram pai, Até os que não tiveram mãe.
Hoje somos órfãos de um tempo que acabou, E espreitamos os berços dos nossos filhos num encanto esperançoso. Que não chorem, que não sofram também! Que possam ser para sempre,…

Find a pearl, meet a girl

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-Vai meu filho e descobre a tua pérola. Mergulha bem fundo e regressa à superfície quantas vezes forem necessárias. Mas não desistas. Ela está lá. Ela é tua. Eu não fui capaz… Agora é tua vez. Miguelito segurava nas suas, as mãos trémulas do pai, e entre lágrimas prometeu ao ancião que nunca desistiria de encontrar a tal pérola. Mais tranquilo, Afonso fechou os olhos e partiu para a longa viagem que todos os homens do mar fazem um dia. Na aldeia de caçadores de pérolas, ninguém era mais laborioso do que o Miguelito. Dali em diante, todos os dias ele entrava na água gelada com o firme propósito de a encontrar. De trazer cá para cima a sua prometida recompensa. Conceição olhava para o rapaz esguio mas musculoso, que chegava do mar. Aos seus olhos ninguém era mais belo. Amava-o em segredo há muito tempo, mas para Miguelito apenas existia a promessa que fizera ao pai. Não enxergava a Conceição, nem enxergava mulher nenhuma. Os anos passaram entre pescarias e sobressaltos. Os traços juvenis der…

Algodão de Moçambique

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Há quantos dias estaria a caminhar não sabia. Sabia apenas que tinha sede, fome, e estava muito cansado. No início da sua caminhada recordava muitas coisas. Agora de pouco se lembrava. Chamava-se Orlando, era português, e vinha fugido. Fizera-se a caminho porquê mesmo?... Imagens vagas de poeira e de caos, vinham mesclar-se a sensações de medo e de privação. O corpo estava coberto de sujidade, mas ainda assim eram perceptíveis marcas de feridas nos braços, nas pernas. Como as fizera? Quem lhas fizera?... Diabos, não sabia!... O sol castigava lá no alto, pendurado numa imensidão azul. Até as pedras da picada pareciam transpiradas. O que lhe valera fora o instinto de orientação que nunca o abandonara. Um lenço aberto em cima de um charco nauseabundo, e toca a sugar água estagnada, mas filtrada. De noite, o cinto das calças servira de segurança. Atado ao cinto e a uma qualquer árvore alta, escapara aos dentes de tigres e leões. Mas para aonde ia? A selva parecia não ter fim. Apesar da prost…

Tempestades, mar revolto, sombras e sol

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Lília estava sentada em frente à mesa. Em seu redor janelas envidraçadas até metade da parede revelavam um cenário que se poderia classificar como apocalíptico. As bátegas de água eram tão grandes, que por várias vezes, ela acreditava que as estruturas envelhecidas do pequeno farol não aguentariam o embate. Lá fora estava escuro, e o vento uivava raivosamente dançando em remoinhos assustadores. Lília apenas olhava. Encarava de frente a tempestade, embora não fosse capaz de evitar fechar os olhos de vez em quando, assustada e receosa. O fim do mundo deveria ser algo bem semelhante ao que presenciava… Desde pequena que Lília vivia assim no meio das intempéries, esperando que as paredes em seu redor cedessem, e não fossem capazes de a proteger do mundo exterior. Era filha de faroleiro, neta de faroleiro. Seu pai, e antes dele seu avô tinham também lidado de perto com tempestades, furacões, tufões e outros fenómenos semelhantes. Ambos tinham levado uma vida de sobressaltos e de reclusão, de…

"Sem móveis, nem tapetes ou mulher, a casa fica vazia"

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Bateu levemente à porta primeiro. Mais audivelmente depois. Pôs-se à espera. O coração galopava no peito, mas estava certo de que tomara a melhor decisão. Além disso a vida longe da Margarida tinha-se tornado insuportável últimamente. Enquanto esperava, o Horácio recordou tantos outros dias em que parara frente a esta mesma porta. Vinha do trabalho, cansado de aturar clientes e chefes sempre insatisfeitos. Com calor, enervado, saturado. Ela vinha ter com ele ao corredor, e dava-lhe um beijo que ele mal sentia. Do umbral da sala descortinava a mesa já posta, a casa bem tratada. Um cheirinho de flores no ar. E a Margarida. Nunca lhe soubera dar valor. “Boa dona de casa”, dizia sempre, “mas muito seca, muito desprendida”. E a sua Margarida foi murchando cada dia mais, cada dia com menos cheiro de flor. Até que ele entendeu trocá-la por outra vinte anos mais nova. E fez pouco caso dos choros, dos pedidos da mulher. Que diabo, estavam casados há mais de trinta anos, a ele assistia-lhe o dire…

Índia

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Salto num pulo, Pulo do lobo. Menina ladina com farto cabelo.
Ninguém lhe sabe a idade, Ninguém consegue sabê-lo.
Ri a quem passa, A todos fala com graça. Gosta de ser admirada, Ama ver-se desejada.
Não cabe em definições, Não se encaixa em padrões. Dela se diz que ninguém a conheceu.
É como a madrugada a raiar o dia. Chita barata, em seda macia. Banquete de rei, Num menu plebeu.
Se é feliz? O povo diz que basta vê-la na rua. Mais do que isso é interdito, Rouba o mistério, tira a magia.
Salto num pulo, Pulo do lobo. Menina ladina com farto cabelo.
Pandora linda, Não abras a caixa, Não soltes desgraças. Fica sempre assim, menina que passa, Em inocente chalaça, Num perpétuo desvelo.

Fica atrás da vidraça

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Quando me venho embora, ela fica com o rostinho colado na vidraça. Essa imagem faz parte dos meus sonhos mais tristes. É sempre um reflexo por detrás do vidro. E é sempre ela. Uma mancha de cor, indistinta, e que fica. Fica, enquanto eu me vou.
Se ela soubesse a vontade que tenho de voltar atrás, de a encher de beijos, de lhe pegar ao colo como dantes! Como quando ela era tão pequenina que a podia levar comigo para todo o lado da vida. Quando ela era uma menina tão linda que as pessoas paravam para a mirar na rua. Uma pequenina bela, tão bela com os canudos louros e os olhos verdes! Naquele tempo, quando ela chorava, parecia que era por mimo, por despropósito, e as pessoas achavam até graça.
Eu sigo pelo corredor, e deixo-a lá. A cada semana menos ela, menos desperta. Mais esquecida. A minha menina... Sabia contar até vinte, os dias da semana, o nome todo, aonde vivia, sabia, pois sabia. Diziam que não, mas ela sabia. E dava beijinhos, e abraços. Gostava de miminhos.
Este domingo pergunt…

Espelhos da alma- Oferece se fores ajudar

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À minha frente o funcionário engravatado afivelava um belo sorriso: -O que mais posso fazer por si?
Preciso de um pouco do azul do céu, um pouco do quente do Verão. Um olhar, um sorriso, um “olá, como estás?”.
Consiga-me a surpresa de um dia feliz!
E encontre-me pessoas queridas, de quem não sei há anos. Devolva-me o galopar descontrolado do coração no peito, melhor do que ganhar na lotaria, melhor do que tudo.
Desperte em mim a vontade de partir em busca de coisas bonitas, Coloque-me alegria no fundo da alma.
Traga de volta as minhas ruas todas para andar!
E perante a cara estupefacta do prestimoso funcionário, largo a sorrir: -Não perguntou? Pois então… -Certo, mas referia-me a coisas que eu possa resolver, não a isso… - Estava a brincar consigo, queira desculpar.
Ele olhou-me atónito, os olhos a piscar. Talvez, quem sabe, se tenha lembrado de um tempo em que o mundo parecia tão grande, que ele não o conseguir enxergar. E desapareceu o balcão, desapareceu tudo. - Saio daqui a pouco. Quer esperar?
Não…