sonhando, escrevendo e imaginando

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Bela porcaria



- Já te disse! Responde-me!
E ela encolhia-se perante uma ira que não conseguia aplacar.
- Quem te fez mal? O que se passou?
Como explicar?
Ninguém lhe tinha feito mal.
Ou se sim, era um mal tão antigo que não lembrava mais.
Talvez ainda no outro lado do tempo.
O que se tinha passado?
Sabia lá.
Era assim.
Porque é que ninguém a aceitava assim?
Queriam saber sempre porquê, porque não.
- Vamos! Então?
Então nada.
Permanecia calada.
Dos outros tudo acatava,
Recebia-os tal como vinham.
Nunca forçava ninguém a ser o que não era.
Com ela…
Pois, está bem.
- Eu vou. Não tenho paciência.
Tudo porque ela chorara…
Também, porque chorara?
Devia saber.
Lágrimas angustiam quem as vê.
Chorara.
Porque chorara?
Era assim.
Ela era assim.
Deixa-o ir.
Para que o havia de querer,
Se nem chorar podia?
Todos iguais.
Bela porcaria.


segunda-feira, 22 de maio de 2017

As Mulheres são lindas!!....



As mulheres estão muito mais bonitas.
Andam com uma elegância descomprometida, olham de frente para os desafios da vida.
Usam roupas de que gostam, e não roupas de figurino.
Têm cabeleiras coloridas, curtas, compridas.
Riem, falam alto, contam anedotas.
Divertem-se.
Tomam a iniciativa, ousam, dão todos os passos em frente.
Têm unhas de gata pintada, ou unhas curtas sem nada.
Não esperam, abrem os seus caminhos.
São independentes e aventureiras.
Tratam os homens como seus iguais.
Valorizam-se, e não temem as demais.
As mulheres estão tão bonitas!
Nestes dias que vivemos,
É  bom ser  mulher no meio das mulheres.


domingo, 21 de maio de 2017

Nómadas no deserto


Todos nós temos um lugar secreto, que é só nosso, e não queremos partilhar com ninguém.
Receamos que se o expusermos, se conspurque, se perca, se desvirtue.
Ocasionalmente encontramos um estranho no nosso lugar secreto.

De início não nos sentimos à vontade, e desejamos que ele parta, e vá embora.
Mas com o passar do tempo, a convivência com o invasor, torna-se menos penosa, e nalguns casos até agradável.
Baixamos as defesas e começamos a integrar o estrangeiro na nossa vida.
É como se ele começasse a fazer parte do cenário idílico que era a nossa privacidade.
Acabamos por acreditar que a chegada dele foi de certa forma positiva.
Consideramos a sorte que tivemos em que tenha sido esta, e não outra pessoa a descobrir o nosso porto seguro.

Por vezes descobrimos que afinal o receio estava certo.
Outras vezes mantemos a satisfação de ter o estranho por perto.
Mas todo o ser humano ama o secreto.
E é um instante enquanto inventamos outro paraíso.

Se os homens não teimassem em invadir fronteiras,
Haveriam menos guerras,
E menos necessidade de inventar bandeiras.
Mas não.
Teimam em construir acampamentos,
Em terrenos batidos por mil ventos.
Sem pedir licença,
Sem querer saber.
Somos nómadas porque os de longe nos obrigam a viajar,
Numa eterna busca por um outro lugar.


quinta-feira, 18 de maio de 2017

Sombras na vidraça



Fechou a porta atrás da última pessoa que saiu.
Finalmente estava sozinha.
Tinham-na felicitado, questionado.
Tinham-se interessado em saber como fora capaz.
Disseram-lhe que outra no seu lugar estaria destruída.
Mostraram-lhe estatísticas, e estudos científicos.
Não havia dúvida.
O embate com alguém tão destrutivo era sempre fatal.
Ela sobrevivera.
Como?
Não sabia.
Ou sabia…

Havia apenas uma situação em que a vitima saía ilesa da relação com um psicopata.
Apenas uma.
Tal como os cães não se comem uns aos outros, os psicopatas não se atacam entre si.
Sentia o mal a circular-lhe nas entranhas, misturado no sangue e no pus dos pensamentos.
Apenas uma maneira de escapar.
E ela conseguira.
Como conseguira?
Não sabia.
Ou sabia…

Criaturas da noite…
Cruzam-se, cheiram-se.
Ignoram-se, ou acasalam em coitos danados.
A sombra de um sorriso maléfico desenhou-se-lhe no rosto.
Afinal tinha vencido.
Ou será que ele a tinha convencido de que era assim?
Não sabia.
Ou sabia…

As ideias martelavam-lhe o cérebro,
Dizem que ainda sorria quando chegou ao chão.
Longe, por trás das vidraças quebradas de um asilo,
Ele esperava.
Ela viria.
Sombra errante sem nenhuma valia.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Oração dos meninos perdidos



Eu tenho um anjo da guarda.
Sei que tenho.

Tem-me protegido em todas as situações difíceis da vida!

Esteve comigo quando a minha mãe morreu.
Deu-me a mão quando ensaiei os primeiros voos,
fora da gaiola pendurada na caverna.

Desviou das minhas veias seringas infectadas,
E selou os meus pulmões a fumos intoxicantes.
Tornou-me imune a comportamentos viciantes.
Fechou as minhas pernas quando eu teimava em as abrir,
Secou as minhas entranhas a sementes estranhas.

Embalou o meu choro de adolescente.
O meu anjo da guarda…

Quando me julgava sozinha,
Ele velava por mim.
Melhor do que qualquer mãe terrestre.
Mais compassivo do que qualquer pai humano.

Colocou no meu caminho boas pessoas.
Iluminou o meu coração quando eu teimava em chafurdar nas trevas.
Lavou a minha alma quando eu a enchi de lama.

Levou para longe os seres do mal que pretendiam ser de luz.
Mesmo quando eu suplicava para os ter comigo.
O meu anjo da guarda…

Sou pobre, tão pobre!
Nada tenho de meu neste mundo tão grande.
Nem terra, nem lar, nem um chão que reconheça como asilo.
Morreram todos os que eram meus porque sim.
Mudou de nome e de endereço o mundo que me viu nascer.
Fiquei sozinha, só eu e mim.

Mas ele está lá sempre.
Lá, aonde ele estiver.
Aonde posso senti-lo quando o chamo.
O meu anjo da guarda…

Não me abandones, meu anjo!
Não me largues à beira da estrada.
Preciso de ti.
Preciso tanto de ti!
Perdoa as vezes em que pareço mal agradecida.


Um beijinho, da tua menina perdida.

domingo, 14 de maio de 2017

Os meninos de alguém



Todos fomos os bebés de alguém.
Todos fomos pequeninos e amorosos.
Em nós albergavam-se  as promessas do mundo,
Nos  olhos inocentes guardávamos a candura, e a pureza.

Alguém se inclinou sobre o nosso berço sorrindo.
Alguém pensou que éramos os mais lindos, os mais perfeitos.
Até os que não tiveram nem pai, nem mãe,
Foram os meninos de alguém.

Quando vimos as fotografias antigas dos tempos de pequeninos,
As lágrimas assomam aos nossos olhos míopes de tanto pensar.
Mentimos quando dizemos que choramos com saudades,
Que temos falta dos que partiram.
Choramos com pena de nós mesmos.
Choramos porque perdemos aquela expressão no olhar.
Ficamos tristes porque nos prostituímos a cada dia que passou,
E queremos saber o caminho de volta, e o caminho secou.

Todos fomos os bebés de alguém.
Até os que não tiveram pai,
Até os que não tiveram mãe.

Hoje somos órfãos de um tempo que acabou,
E espreitamos os berços dos nossos filhos num encanto esperançoso.
Que não chorem, que não sofram também!
Que possam ser para sempre, ao menos eles, os meninos de alguém.


sábado, 13 de maio de 2017

Find a pearl, meet a girl





-Vai meu filho e descobre a tua pérola. Mergulha bem fundo e regressa à superfície quantas vezes forem necessárias. Mas não desistas. Ela está lá. Ela é tua. Eu não fui capaz… Agora é tua vez.
Miguelito segurava nas suas, as mãos trémulas do pai, e entre lágrimas prometeu ao ancião que nunca desistiria de encontrar a tal pérola.
Mais tranquilo, Afonso fechou os olhos e partiu para a longa viagem que todos os homens do mar fazem um dia.
Na aldeia de caçadores de pérolas, ninguém era mais laborioso do que o Miguelito. Dali em diante, todos os dias ele entrava na água gelada com o firme propósito de a encontrar. De trazer cá para cima a sua prometida recompensa.
Conceição olhava para o rapaz esguio mas musculoso, que chegava do mar. Aos seus olhos ninguém era mais belo. Amava-o em segredo há muito tempo, mas para Miguelito apenas existia a promessa que fizera ao pai. Não enxergava a Conceição, nem enxergava mulher nenhuma.
Os anos passaram entre pescarias e sobressaltos. Os traços juvenis deram lugar à expressão definida de um adulto determinado, obcecado até. Tinham-se afastado dele amigos e antigos camaradas de faina. Para todos Miguelito estava perdido, mergulhado numa busca infrutífera e desgovernada. Cada vez se sentia mais sozinho. Fazia-lhe companhia a lembrança do pai moribundo, e a promessa que este lhe arrancara à hora da morte. “descobre a tua pérola”.
Naquela madrugada, Miguelito não devia ter ido ao mar. Devia, tal como os outros, ter recolhido a casa e aguardado que a tempestade amainasse. Mas não! Mergulhara como se nada fosse, fizera pouco caso da ira das ondas, e rira da fúria das marés. Dizem que foi por isso que os deuses não lhe perdoaram. Deu à costa passados alguns dias. Da boca saíram-lhe dois caranguejos pequenos, como pequena tinha sido afinal a sua passagem por este mundo.
Na aldeia ninguém o chorou. Não tinha família, tinha-se convertido num quase monge de reclusão. Apenas Conceição o velou, e o acompanhou na partida. Dos seus bonitos olhos verdes escorriam lágrimas teimosas, que pareciam não querer parar. Cada lágrima era um diamante redondinho e cintilante. Cada lágrima se assemelhava a uma pérola. Toda a Conceição adquiria tons de pérola e cambiantes de coisa rara. Tinha estado sempre ali a pérola prometida. Tinha estado sempre ali, e Miguelito nunca se tinha dado conta disso. Entrara e saíra das águas num frenesim diabólico, sem se permitir ver em seu redor. Ela, Conceição, tinha sido a sua pérola na vida.
Mal dos pais que tentam realizar nos filhos, feitos que foram incapazes de praticar. E mal dos filhos, que permanecem numa fidelidade absurda, escutando os apelos vindos da tumba de quem não soube viver.


quinta-feira, 11 de maio de 2017

Algodão de Moçambique



Há quantos dias estaria a caminhar não sabia. Sabia apenas que tinha sede, fome, e estava muito cansado. No início da sua caminhada recordava muitas coisas. Agora de pouco se lembrava. Chamava-se Orlando, era português, e vinha fugido.
Fizera-se a caminho porquê mesmo?... Imagens vagas de poeira e de caos, vinham mesclar-se a sensações de medo e de privação. O corpo estava coberto de sujidade, mas ainda assim eram perceptíveis marcas de feridas nos braços, nas pernas. Como as fizera? Quem lhas fizera?... Diabos, não sabia!...
O sol castigava lá no alto, pendurado numa imensidão azul. Até as pedras da picada pareciam transpiradas. O que lhe valera fora o instinto de orientação que nunca o abandonara. Um lenço aberto em cima de um charco nauseabundo, e toca a sugar água estagnada, mas filtrada. De noite, o cinto das calças servira de segurança. Atado ao cinto e a uma qualquer árvore alta, escapara aos dentes de tigres e leões. Mas para aonde ia? A selva parecia não ter fim.
Apesar da prostração dos membros, sabia que não podia parar. Parar equivalia a morrer. Seguir sempre, em busca de uma povoação, de uma aldeia, isso sim, seria a salvação.
Misturado nas ondas de calor que lhe salgavam os olhos, Orlando descortinou o sombreado do que parecia serem casas. Casas e não palhotas. Brancos… Eram brancos os que viviam ali.
Foi prontamente acolhido por um homem de alguma idade, que se interessou mais em cuidar dos seus pés em chagas, e em matar-lhe a sede do que em saber de onde ele vinha. Estava salvo portanto!
Aos poucos a memória foi voltando, e Orlando conseguiu recordar pedaços soltos do seu passado recente. Era chefe num posto de algodão. Tinha sido colocado há pouco tempo, e competia-lhe assegurar as transacções comerciais entre os negros produtores de algodão, e os funcionários da firma encarregues de o comprar. Viera dar sem saber ao seio de uma complicada rede de corrupção tecida há anos, um vespeiro que ninguém estava interessado em exterminar. Por cada carregamento de algodão, os negros eram pagos com uma insignificância, que nada era comparado com o que deveriam receber. Se apresentavam vinte quilos de algodão, eram-lhes contabilizadas menos de metade das sacas entregues. O dinheiro era depois repartido entre os funcionários, e tudo ficava por ali mesmo. Orlando insurgira-se contra esse esquema, o que lhe tinha valido ameaças a principio, perseguições depois, e por fim um brutal espancamento. Espancamento esse que o deixou à beira da picada, à saída da povoação, com toda a selva à frente. Levantara-se e começara a andar. Andar e andara por muitos dias. A estação das chuvas estava para chegar, e ele sabia que nenhuma viatura se faria à estrada nessas condições. Além disso, apenas poderia esperar ajuda dos negros, e esses, pobres vítimas da escravidão e da corrupção, nada podiam fazer por ele, a não ser agradecerem-lhe às escondidas a cada vez que Orlando repunha a justeza no momento de pesar o algodão. Só lhe restava confiar nas milengas e caminhar. E foi o que fez.
Assim que ficou em condições de prosseguir viagem, Orlando agradeceu e despediu-se do velho português que lhe dera guarida. Apanhou boleia num camião de frescos e chegou finalmente a Lourenço Marques. Nunca contou às autoridades a história daquilo que se passou. Não denunciou, não apresentou queixa na policia. Queixa contra quem? Quem estaria interessado na pouca sorte de meia de dúzia de negros perdidos na selva? Passados muitos anos relatou o ocorrido a uma das suas filhas. E foi através dela que tomei conhecimento da viagem expedicionária de Orlando através da selva. O lugar era Metarica, no Niassa. Maúa, Mandimba, Cuamba, Malema e Nampula também faziam parte da aventura. Orlando é um nome fictício, e o viajante há muito que faleceu. Os funcionários corruptos, esses, talvez tenham sofrido as consequências dos seus actos, na ponta de alguma catana, às mãos daqueles a quem tanto mal fizeram.
É destas histórias sem história que se faz o mundo. Era uma vez lá numa floresta…


quarta-feira, 10 de maio de 2017

Tempestades, mar revolto, sombras e sol



Lília estava sentada em frente à mesa. Em seu redor janelas envidraçadas até metade da parede revelavam um cenário que se poderia classificar como apocalíptico. As bátegas de água eram tão grandes, que por várias vezes, ela acreditava que as estruturas envelhecidas do pequeno farol não aguentariam o embate.
Lá fora estava escuro, e o vento uivava raivosamente dançando em remoinhos assustadores. Lília apenas olhava. Encarava de frente a tempestade, embora não fosse capaz de evitar fechar os olhos de vez em quando, assustada e receosa. O fim do mundo deveria ser algo bem semelhante ao que presenciava…
Desde pequena que Lília vivia assim no meio das intempéries, esperando que as paredes em seu redor cedessem, e não fossem capazes de a proteger do mundo exterior. Era filha de faroleiro, neta de faroleiro. Seu pai, e antes dele seu avô tinham também lidado de perto com tempestades, furacões, tufões e outros fenómenos semelhantes. Ambos tinham levado uma vida de sobressaltos e de reclusão, de exposição e de retracção. Tal como ela própria, Lília.
A sua mãe nunca conseguira lidar com a dureza da proximidade do mar revolto. Fora uma marinheira de eterna primeira viagem. Enjoara, praguejara, vomitara as tripas e as entranhas a cada tempestade. Acabara por morrer sem história, afogada nas vagas altas que nem teriam o poder de a salpicar, se ela tivesse mantido as janelas fechadas. Fechadas, mas com uma vidraça transparente. Porque só nos faz mal aquilo que não conhecemos, só nos devoram os monstros que criamos na escuridão dos quartos fechados.
Uma onda enorme envolveu todo o farol, com os seus dedos molhados de ansiedade e de pânico. Lília encolheu-se um pouco mais e resistiu. “Eu estou bem. É lá fora. Eu assisto, apenas isso.”- repetia e voltava a repetir como um mantra salvador.
Como viera, o furacão passou. Até nisso Lília encontrava semelhanças com a sua distante África. África dos sonhos e das ameaças, dos perigos e das seduções. África aonde o tudo fica nada num segundo. E aonde nada é todo o mundo, logo a seguir. Lília era como a África negra que carregava no coração. Africana, faroleira por destino ou maldição.
Repentinamente o horizonte perdera o breu, e adquiria tons maviosos de rubro enfeitiçado. O sol enchia a pequena sala de reflexos coloridos, transformando em diamantes espelhados as vidraças aonde as águas revoltas tinham deixado largas manchas de sal. Os pássaros marinhos aventuravam voos picados nas ondas tranquilas, e o azul era uma safira faiscante por baixo do céu Em volta de Lília tudo era vermelho, laranja, dourado. Como era lindo aquilo Como era belo! E lá era possível viver sem aquelas explosões de grandiosidade e de prazer, que se sucediam a cada hora de terror?
Decidida arredou com a mão a caixa desengraçada. “- Pelo menos promete que tomas um, se te sentires pior!” Ná! E perder depois aquele viver e morrer, aquele renascer das cinzas que era melhor que tudo? Melhor do que sexo, preferível aos arranques da paixão, às artimanhas do amor! Deixar de lado a única certeza na sua vida inconstante, e desdenhar da única herança de um tempo distante?
Apetecia-lhe largar a correr pela areia dourada em volta do farol… Afundar os pés descalços no calor da praia fecundada pelo mar… Lília levantou e saiu airosa para a rua. Deixou a porta destrancada, para se precisasse de regressar a correr.
Lá ao fundo, na dobra do horizonte, novas formações de nuvens escuras avançavam decididamente. Corre pequena Lília, corre. Aproveita bem o teu momento.


domingo, 7 de maio de 2017

"Sem móveis, nem tapetes ou mulher, a casa fica vazia"



Bateu levemente à porta primeiro. Mais audivelmente depois. Pôs-se à espera. O coração galopava no peito, mas estava certo de que tomara a melhor decisão. Além disso a vida longe da Margarida tinha-se tornado insuportável últimamente.
Enquanto esperava, o Horácio recordou tantos outros dias em que parara frente a esta mesma porta. Vinha do trabalho, cansado de aturar clientes e chefes sempre insatisfeitos. Com calor, enervado, saturado. Ela vinha ter com ele ao corredor, e dava-lhe um beijo que ele mal sentia. Do umbral da sala descortinava a mesa já posta, a casa bem tratada. Um cheirinho de flores no ar. E a Margarida.
Nunca lhe soubera dar valor. “Boa dona de casa”, dizia sempre, “mas muito seca, muito desprendida”. E a sua Margarida foi murchando cada dia mais, cada dia com menos cheiro de flor. Até que ele entendeu trocá-la por outra vinte anos mais nova. E fez pouco caso dos choros, dos pedidos da mulher. Que diabo, estavam casados há mais de trinta anos, a ele assistia-lhe o direito incontestado de tentar ser feliz, ou não? Claro que sim. E ela, a Margarida da sua juventude, ela que se desembaraçasse. Caramba! Um homem não há-de morrer preso à mesma mulher, só porque um dia casou com ela, certo?
Fora embora, e ficara por longe meia dúzia de anos. Mas sentira afinal falta do aconchego do lar tranquilo, da pachorrentice das chinelas perto do sofá, do jantar servido a horas certas. Sobretudo sentia falta dela. Sua companheira da vida. Sua mulher afinal. Tinha sido muito estúpido, muito inconsequente. Como estaria a Margarida? Chiça, que nunca mais abre a maldita da porta!
Meteu a mão ao bolso, e retirou a chave. Ficara com a chave. Ela não lha pedira de volta, e ele sem saber porquê, nunca a devolvera. Aquela era afinal também a sua casa! Tinha-a pago durante quase uma vida. Verdade que a Margarida tinha lá dado a contribuição dela, mas apenas trocados, tostões. O grosso da despesa sempre estivera a cargo dele.
Deu duas voltas na fechadura, e entrou. Ninguém à vista. A casa estava vazia. Então mas nem móveis, nem tapetes, nem mesa com jantar? Então mas, e a Margarida?
-Senhor Horácio, boa noite. Deseja alguma coisa?- era a vizinha da frente, prestimosa e quadrilheira, que o interpelava com ar pasmado.
-Boa noite, D. Idalina. Eu vinha ver da Margarida. Mas que se passa? A casa está vazia?
-Então não soube?- e depois mais para si mesma do que para ele- Claro, como havia de saber?
-Não soube de quê? Vá lá mulher, desembuche!
-A Guidinha e o senhor engenheiro mudaram-se a semana passada. A casa vai ser posta para venda.
-Senhor engenheiro? Mas que senhor engenheiro é esse?- o mundo parecia que rodava frente aos seus olhos. Num ápice viu-se sem casa, sem chinelos perto do sofá, sem mesa posta à hora de jantar. E sem ela. Sem a Margarida.
-A Guidinha refez a vida, senhor Horácio. Ele é um homem de bem. Muito amigo dela. Foram viver para o estrangeiro. Até me disseram o lugar, mas é um nome difícil, já esqueci.- e depois num gozo de vingança fria- Mas o senhor fez igual, não se lembra? Deixou a casa, foi embora. Arranjou outra mulher. A Guidinha também tem esse direito.
Não quis ouvir mais. Abalou escada abaixo. No pensamento tinha uma ideia fixa- Deixa-me correr. Quem sabe apanho ainda a Raquel em casa? Essa não cozinha grande coisa, é muito dona do seu nariz, só faz o que quer, mas tem-me aturado este tempo todo. Chiça! Se eu tenho adivinhado não lhe tinha dito o que disse esta manhã… Mas quem diria que a Margarida se havia de portar mal? Porcas de mulheres!


quinta-feira, 4 de maio de 2017

Índia



Salto num pulo,
Pulo do lobo.
Menina ladina com farto cabelo.

Ninguém lhe sabe a idade,
Ninguém consegue sabê-lo.

Ri a quem passa,
A todos fala com graça.
Gosta de ser admirada,
Ama ver-se desejada.

Não cabe em definições,
Não se encaixa em padrões.
Dela se diz que ninguém a conheceu.

É como a madrugada a raiar o dia.
Chita barata, em seda macia.
Banquete de rei,
Num menu plebeu.

Se é feliz?
O povo diz que basta vê-la na rua.
Mais do que isso é interdito,
Rouba o mistério, tira a magia.

Salto num pulo,
Pulo do lobo.
Menina ladina com farto cabelo.

Pandora linda,
Não abras a caixa,
Não soltes desgraças.
Fica sempre assim, menina que passa,
Em inocente chalaça,
Num perpétuo desvelo.


segunda-feira, 1 de maio de 2017

Fica atrás da vidraça



Quando me venho embora, ela fica com o rostinho colado na vidraça. Essa imagem faz parte dos meus sonhos mais tristes. É sempre um reflexo por detrás do vidro. E é sempre ela. Uma mancha de cor, indistinta, e que fica. Fica, enquanto eu me vou.

Se ela soubesse a vontade que tenho de voltar atrás, de a encher de beijos, de lhe pegar ao colo como dantes! Como quando ela era tão pequenina que a podia levar comigo para todo o lado da vida. Quando ela era uma menina tão linda que as pessoas paravam para a mirar na rua. Uma pequenina bela, tão bela com os canudos louros e os olhos verdes! Naquele tempo, quando ela chorava, parecia que era por mimo, por despropósito, e as pessoas achavam até graça.

Eu sigo pelo corredor, e deixo-a lá. A cada semana menos ela, menos desperta. Mais esquecida. A minha menina... Sabia contar até vinte, os dias da semana, o nome todo, aonde vivia, sabia, pois sabia. Diziam que não, mas ela sabia. E dava beijinhos, e abraços. Gostava de miminhos.

Este domingo perguntei-lhe qual a cor do vestido dela, e olhou-me numa tristeza sem fim, nem tamanho. “Verde…”, respondeu ao acaso, porque o vestido era vermelho. E estava triste porque via-se que já não distinguia as cores.

Esqueceu-se. E não queria que eu visse que já não sabia. Que importa, não é mesmo? Para quê cores, dias e números? Para quê tudo isso? As horas esquecidas em exercícios sem fim, a ginástica, caminhadas, as cantigas, para quê? Tanto que eu quis que ela coubesse num mundo que não a queria! Que se dane tudo isso, minha filha!

Às urtigas essas coisas estúpidas que não fazem falta nenhuma. Porque o que realmente faz falta no teu  mundo é saber a hora da comida, e a hora da deita, e “não choras porque és crescida”. Não estou a ser irónica. Nem cínica. Nem está implícita nenhuma critica.

É a constatação da realidade. Porque será que damos murros em pontas de faca, e insistimos em querer pregar pregos redondos, em furos quadrados? E achamos que o que é normal, e corresponde à maioria, é o melhor para todos. Porquê?

Perdoa, minha princesinha querida. Não faz mal que já não saibas as cores. Não tem problema que confundas as canções. A única coisa que está de facto errada, é que eu venho e tu ficas. E quanto a isso, não há psicologia que resolva.

Só não sofras. Só não fiques triste. Desculpa eu não ser melhor do que a miséria que sou. Não precisas de mim para nada, sou eu quem precisa que não me deixes abandonada.

E aquieta-se o meu coração quando ela me pede um beijo.
O ela gostar ainda de mim é um mistério, um segredo, um dos maiores bens que vejo.


Espelhos da alma- Oferece se fores ajudar



À minha frente o funcionário engravatado afivelava um belo sorriso:
-O que mais posso fazer por si?

Preciso de um pouco do azul do céu, um pouco do quente do Verão.
Um olhar, um sorriso, um “olá, como estás?”.

Consiga-me a surpresa de um dia feliz!

E encontre-me pessoas queridas, de quem não sei há anos.
Devolva-me o galopar descontrolado do coração no peito, melhor do que ganhar na lotaria, melhor do que tudo.

Desperte em mim a vontade de partir em busca de coisas bonitas,
Coloque-me alegria no fundo da alma.

Traga de volta as minhas ruas todas para andar!

E perante a cara estupefacta do prestimoso funcionário, largo a sorrir:
-Não perguntou? Pois então…
-Certo, mas referia-me a coisas que eu possa resolver, não a isso…
- Estava a brincar consigo, queira desculpar.

Ele olhou-me atónito, os olhos a piscar.
Talvez, quem sabe, se tenha lembrado de um tempo em que o mundo parecia tão grande, que ele não o conseguir enxergar.
E desapareceu o balcão, desapareceu tudo.
- Saio daqui a pouco. Quer esperar?

Não, não queria.
Mania que as pessoas têm de perguntar.