sonhando, escrevendo e imaginando

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Algodão de Moçambique



Há quantos dias estaria a caminhar não sabia. Sabia apenas que tinha sede, fome, e estava muito cansado. No início da sua caminhada recordava muitas coisas. Agora de pouco se lembrava. Chamava-se Orlando, era português, e vinha fugido.
Fizera-se a caminho porquê mesmo?... Imagens vagas de poeira e de caos, vinham mesclar-se a sensações de medo e de privação. O corpo estava coberto de sujidade, mas ainda assim eram perceptíveis marcas de feridas nos braços, nas pernas. Como as fizera? Quem lhas fizera?... Diabos, não sabia!...
O sol castigava lá no alto, pendurado numa imensidão azul. Até as pedras da picada pareciam transpiradas. O que lhe valera fora o instinto de orientação que nunca o abandonara. Um lenço aberto em cima de um charco nauseabundo, e toca a sugar água estagnada, mas filtrada. De noite, o cinto das calças servira de segurança. Atado ao cinto e a uma qualquer árvore alta, escapara aos dentes de tigres e leões. Mas para aonde ia? A selva parecia não ter fim.
Apesar da prostração dos membros, sabia que não podia parar. Parar equivalia a morrer. Seguir sempre, em busca de uma povoação, de uma aldeia, isso sim, seria a salvação.
Misturado nas ondas de calor que lhe salgavam os olhos, Orlando descortinou o sombreado do que parecia serem casas. Casas e não palhotas. Brancos… Eram brancos os que viviam ali.
Foi prontamente acolhido por um homem de alguma idade, que se interessou mais em cuidar dos seus pés em chagas, e em matar-lhe a sede do que em saber de onde ele vinha. Estava salvo portanto!
Aos poucos a memória foi voltando, e Orlando conseguiu recordar pedaços soltos do seu passado recente. Era chefe num posto de algodão. Tinha sido colocado há pouco tempo, e competia-lhe assegurar as transacções comerciais entre os negros produtores de algodão, e os funcionários da firma encarregues de o comprar. Viera dar sem saber ao seio de uma complicada rede de corrupção tecida há anos, um vespeiro que ninguém estava interessado em exterminar. Por cada carregamento de algodão, os negros eram pagos com uma insignificância, que nada era comparado com o que deveriam receber. Se apresentavam vinte quilos de algodão, eram-lhes contabilizadas menos de metade das sacas entregues. O dinheiro era depois repartido entre os funcionários, e tudo ficava por ali mesmo. Orlando insurgira-se contra esse esquema, o que lhe tinha valido ameaças a principio, perseguições depois, e por fim um brutal espancamento. Espancamento esse que o deixou à beira da picada, à saída da povoação, com toda a selva à frente. Levantara-se e começara a andar. Andar e andara por muitos dias. A estação das chuvas estava para chegar, e ele sabia que nenhuma viatura se faria à estrada nessas condições. Além disso, apenas poderia esperar ajuda dos negros, e esses, pobres vítimas da escravidão e da corrupção, nada podiam fazer por ele, a não ser agradecerem-lhe às escondidas a cada vez que Orlando repunha a justeza no momento de pesar o algodão. Só lhe restava confiar nas milengas e caminhar. E foi o que fez.
Assim que ficou em condições de prosseguir viagem, Orlando agradeceu e despediu-se do velho português que lhe dera guarida. Apanhou boleia num camião de frescos e chegou finalmente a Lourenço Marques. Nunca contou às autoridades a história daquilo que se passou. Não denunciou, não apresentou queixa na policia. Queixa contra quem? Quem estaria interessado na pouca sorte de meia de dúzia de negros perdidos na selva? Passados muitos anos relatou o ocorrido a uma das suas filhas. E foi através dela que tomei conhecimento da viagem expedicionária de Orlando através da selva. O lugar era Metarica, no Niassa. Maúa, Mandimba, Cuamba, Malema e Nampula também faziam parte da aventura. Orlando é um nome fictício, e o viajante há muito que faleceu. Os funcionários corruptos, esses, talvez tenham sofrido as consequências dos seus actos, na ponta de alguma catana, às mãos daqueles a quem tanto mal fizeram.
É destas histórias sem história que se faz o mundo. Era uma vez lá numa floresta…


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