sonhando, escrevendo e imaginando

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Fica atrás da vidraça



Quando me venho embora, ela fica com o rostinho colado na vidraça. Essa imagem faz parte dos meus sonhos mais tristes. É sempre um reflexo por detrás do vidro. E é sempre ela. Uma mancha de cor, indistinta, e que fica. Fica, enquanto eu me vou.

Se ela soubesse a vontade que tenho de voltar atrás, de a encher de beijos, de lhe pegar ao colo como dantes! Como quando ela era tão pequenina que a podia levar comigo para todo o lado da vida. Quando ela era uma menina tão linda que as pessoas paravam para a mirar na rua. Uma pequenina bela, tão bela com os canudos louros e os olhos verdes! Naquele tempo, quando ela chorava, parecia que era por mimo, por despropósito, e as pessoas achavam até graça.

Eu sigo pelo corredor, e deixo-a lá. A cada semana menos ela, menos desperta. Mais esquecida. A minha menina... Sabia contar até vinte, os dias da semana, o nome todo, aonde vivia, sabia, pois sabia. Diziam que não, mas ela sabia. E dava beijinhos, e abraços. Gostava de miminhos.

Este domingo perguntei-lhe qual a cor do vestido dela, e olhou-me numa tristeza sem fim, nem tamanho. “Verde…”, respondeu ao acaso, porque o vestido era vermelho. E estava triste porque via-se que já não distinguia as cores.

Esqueceu-se. E não queria que eu visse que já não sabia. Que importa, não é mesmo? Para quê cores, dias e números? Para quê tudo isso? As horas esquecidas em exercícios sem fim, a ginástica, caminhadas, as cantigas, para quê? Tanto que eu quis que ela coubesse num mundo que não a queria! Que se dane tudo isso, minha filha!

Às urtigas essas coisas estúpidas que não fazem falta nenhuma. Porque o que realmente faz falta no teu  mundo é saber a hora da comida, e a hora da deita, e “não choras porque és crescida”. Não estou a ser irónica. Nem cínica. Nem está implícita nenhuma critica.

É a constatação da realidade. Porque será que damos murros em pontas de faca, e insistimos em querer pregar pregos redondos, em furos quadrados? E achamos que o que é normal, e corresponde à maioria, é o melhor para todos. Porquê?

Perdoa, minha princesinha querida. Não faz mal que já não saibas as cores. Não tem problema que confundas as canções. A única coisa que está de facto errada, é que eu venho e tu ficas. E quanto a isso, não há psicologia que resolva.

Só não sofras. Só não fiques triste. Desculpa eu não ser melhor do que a miséria que sou. Não precisas de mim para nada, sou eu quem precisa que não me deixes abandonada.

E aquieta-se o meu coração quando ela me pede um beijo.
O ela gostar ainda de mim é um mistério, um segredo, um dos maiores bens que vejo.


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