sonhando, escrevendo e imaginando

sábado, 13 de maio de 2017

Find a pearl, meet a girl





-Vai meu filho e descobre a tua pérola. Mergulha bem fundo e regressa à superfície quantas vezes forem necessárias. Mas não desistas. Ela está lá. Ela é tua. Eu não fui capaz… Agora é tua vez.
Miguelito segurava nas suas, as mãos trémulas do pai, e entre lágrimas prometeu ao ancião que nunca desistiria de encontrar a tal pérola.
Mais tranquilo, Afonso fechou os olhos e partiu para a longa viagem que todos os homens do mar fazem um dia.
Na aldeia de caçadores de pérolas, ninguém era mais laborioso do que o Miguelito. Dali em diante, todos os dias ele entrava na água gelada com o firme propósito de a encontrar. De trazer cá para cima a sua prometida recompensa.
Conceição olhava para o rapaz esguio mas musculoso, que chegava do mar. Aos seus olhos ninguém era mais belo. Amava-o em segredo há muito tempo, mas para Miguelito apenas existia a promessa que fizera ao pai. Não enxergava a Conceição, nem enxergava mulher nenhuma.
Os anos passaram entre pescarias e sobressaltos. Os traços juvenis deram lugar à expressão definida de um adulto determinado, obcecado até. Tinham-se afastado dele amigos e antigos camaradas de faina. Para todos Miguelito estava perdido, mergulhado numa busca infrutífera e desgovernada. Cada vez se sentia mais sozinho. Fazia-lhe companhia a lembrança do pai moribundo, e a promessa que este lhe arrancara à hora da morte. “descobre a tua pérola”.
Naquela madrugada, Miguelito não devia ter ido ao mar. Devia, tal como os outros, ter recolhido a casa e aguardado que a tempestade amainasse. Mas não! Mergulhara como se nada fosse, fizera pouco caso da ira das ondas, e rira da fúria das marés. Dizem que foi por isso que os deuses não lhe perdoaram. Deu à costa passados alguns dias. Da boca saíram-lhe dois caranguejos pequenos, como pequena tinha sido afinal a sua passagem por este mundo.
Na aldeia ninguém o chorou. Não tinha família, tinha-se convertido num quase monge de reclusão. Apenas Conceição o velou, e o acompanhou na partida. Dos seus bonitos olhos verdes escorriam lágrimas teimosas, que pareciam não querer parar. Cada lágrima era um diamante redondinho e cintilante. Cada lágrima se assemelhava a uma pérola. Toda a Conceição adquiria tons de pérola e cambiantes de coisa rara. Tinha estado sempre ali a pérola prometida. Tinha estado sempre ali, e Miguelito nunca se tinha dado conta disso. Entrara e saíra das águas num frenesim diabólico, sem se permitir ver em seu redor. Ela, Conceição, tinha sido a sua pérola na vida.
Mal dos pais que tentam realizar nos filhos, feitos que foram incapazes de praticar. E mal dos filhos, que permanecem numa fidelidade absurda, escutando os apelos vindos da tumba de quem não soube viver.


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