sonhando, escrevendo e imaginando

domingo, 7 de maio de 2017

"Sem móveis, nem tapetes ou mulher, a casa fica vazia"



Bateu levemente à porta primeiro. Mais audivelmente depois. Pôs-se à espera. O coração galopava no peito, mas estava certo de que tomara a melhor decisão. Além disso a vida longe da Margarida tinha-se tornado insuportável últimamente.
Enquanto esperava, o Horácio recordou tantos outros dias em que parara frente a esta mesma porta. Vinha do trabalho, cansado de aturar clientes e chefes sempre insatisfeitos. Com calor, enervado, saturado. Ela vinha ter com ele ao corredor, e dava-lhe um beijo que ele mal sentia. Do umbral da sala descortinava a mesa já posta, a casa bem tratada. Um cheirinho de flores no ar. E a Margarida.
Nunca lhe soubera dar valor. “Boa dona de casa”, dizia sempre, “mas muito seca, muito desprendida”. E a sua Margarida foi murchando cada dia mais, cada dia com menos cheiro de flor. Até que ele entendeu trocá-la por outra vinte anos mais nova. E fez pouco caso dos choros, dos pedidos da mulher. Que diabo, estavam casados há mais de trinta anos, a ele assistia-lhe o direito incontestado de tentar ser feliz, ou não? Claro que sim. E ela, a Margarida da sua juventude, ela que se desembaraçasse. Caramba! Um homem não há-de morrer preso à mesma mulher, só porque um dia casou com ela, certo?
Fora embora, e ficara por longe meia dúzia de anos. Mas sentira afinal falta do aconchego do lar tranquilo, da pachorrentice das chinelas perto do sofá, do jantar servido a horas certas. Sobretudo sentia falta dela. Sua companheira da vida. Sua mulher afinal. Tinha sido muito estúpido, muito inconsequente. Como estaria a Margarida? Chiça, que nunca mais abre a maldita da porta!
Meteu a mão ao bolso, e retirou a chave. Ficara com a chave. Ela não lha pedira de volta, e ele sem saber porquê, nunca a devolvera. Aquela era afinal também a sua casa! Tinha-a pago durante quase uma vida. Verdade que a Margarida tinha lá dado a contribuição dela, mas apenas trocados, tostões. O grosso da despesa sempre estivera a cargo dele.
Deu duas voltas na fechadura, e entrou. Ninguém à vista. A casa estava vazia. Então mas nem móveis, nem tapetes, nem mesa com jantar? Então mas, e a Margarida?
-Senhor Horácio, boa noite. Deseja alguma coisa?- era a vizinha da frente, prestimosa e quadrilheira, que o interpelava com ar pasmado.
-Boa noite, D. Idalina. Eu vinha ver da Margarida. Mas que se passa? A casa está vazia?
-Então não soube?- e depois mais para si mesma do que para ele- Claro, como havia de saber?
-Não soube de quê? Vá lá mulher, desembuche!
-A Guidinha e o senhor engenheiro mudaram-se a semana passada. A casa vai ser posta para venda.
-Senhor engenheiro? Mas que senhor engenheiro é esse?- o mundo parecia que rodava frente aos seus olhos. Num ápice viu-se sem casa, sem chinelos perto do sofá, sem mesa posta à hora de jantar. E sem ela. Sem a Margarida.
-A Guidinha refez a vida, senhor Horácio. Ele é um homem de bem. Muito amigo dela. Foram viver para o estrangeiro. Até me disseram o lugar, mas é um nome difícil, já esqueci.- e depois num gozo de vingança fria- Mas o senhor fez igual, não se lembra? Deixou a casa, foi embora. Arranjou outra mulher. A Guidinha também tem esse direito.
Não quis ouvir mais. Abalou escada abaixo. No pensamento tinha uma ideia fixa- Deixa-me correr. Quem sabe apanho ainda a Raquel em casa? Essa não cozinha grande coisa, é muito dona do seu nariz, só faz o que quer, mas tem-me aturado este tempo todo. Chiça! Se eu tenho adivinhado não lhe tinha dito o que disse esta manhã… Mas quem diria que a Margarida se havia de portar mal? Porcas de mulheres!


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