sonhando, escrevendo e imaginando

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Tempestades, mar revolto, sombras e sol



Lília estava sentada em frente à mesa. Em seu redor janelas envidraçadas até metade da parede revelavam um cenário que se poderia classificar como apocalíptico. As bátegas de água eram tão grandes, que por várias vezes, ela acreditava que as estruturas envelhecidas do pequeno farol não aguentariam o embate.
Lá fora estava escuro, e o vento uivava raivosamente dançando em remoinhos assustadores. Lília apenas olhava. Encarava de frente a tempestade, embora não fosse capaz de evitar fechar os olhos de vez em quando, assustada e receosa. O fim do mundo deveria ser algo bem semelhante ao que presenciava…
Desde pequena que Lília vivia assim no meio das intempéries, esperando que as paredes em seu redor cedessem, e não fossem capazes de a proteger do mundo exterior. Era filha de faroleiro, neta de faroleiro. Seu pai, e antes dele seu avô tinham também lidado de perto com tempestades, furacões, tufões e outros fenómenos semelhantes. Ambos tinham levado uma vida de sobressaltos e de reclusão, de exposição e de retracção. Tal como ela própria, Lília.
A sua mãe nunca conseguira lidar com a dureza da proximidade do mar revolto. Fora uma marinheira de eterna primeira viagem. Enjoara, praguejara, vomitara as tripas e as entranhas a cada tempestade. Acabara por morrer sem história, afogada nas vagas altas que nem teriam o poder de a salpicar, se ela tivesse mantido as janelas fechadas. Fechadas, mas com uma vidraça transparente. Porque só nos faz mal aquilo que não conhecemos, só nos devoram os monstros que criamos na escuridão dos quartos fechados.
Uma onda enorme envolveu todo o farol, com os seus dedos molhados de ansiedade e de pânico. Lília encolheu-se um pouco mais e resistiu. “Eu estou bem. É lá fora. Eu assisto, apenas isso.”- repetia e voltava a repetir como um mantra salvador.
Como viera, o furacão passou. Até nisso Lília encontrava semelhanças com a sua distante África. África dos sonhos e das ameaças, dos perigos e das seduções. África aonde o tudo fica nada num segundo. E aonde nada é todo o mundo, logo a seguir. Lília era como a África negra que carregava no coração. Africana, faroleira por destino ou maldição.
Repentinamente o horizonte perdera o breu, e adquiria tons maviosos de rubro enfeitiçado. O sol enchia a pequena sala de reflexos coloridos, transformando em diamantes espelhados as vidraças aonde as águas revoltas tinham deixado largas manchas de sal. Os pássaros marinhos aventuravam voos picados nas ondas tranquilas, e o azul era uma safira faiscante por baixo do céu Em volta de Lília tudo era vermelho, laranja, dourado. Como era lindo aquilo Como era belo! E lá era possível viver sem aquelas explosões de grandiosidade e de prazer, que se sucediam a cada hora de terror?
Decidida arredou com a mão a caixa desengraçada. “- Pelo menos promete que tomas um, se te sentires pior!” Ná! E perder depois aquele viver e morrer, aquele renascer das cinzas que era melhor que tudo? Melhor do que sexo, preferível aos arranques da paixão, às artimanhas do amor! Deixar de lado a única certeza na sua vida inconstante, e desdenhar da única herança de um tempo distante?
Apetecia-lhe largar a correr pela areia dourada em volta do farol… Afundar os pés descalços no calor da praia fecundada pelo mar… Lília levantou e saiu airosa para a rua. Deixou a porta destrancada, para se precisasse de regressar a correr.
Lá ao fundo, na dobra do horizonte, novas formações de nuvens escuras avançavam decididamente. Corre pequena Lília, corre. Aproveita bem o teu momento.


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