sonhando, escrevendo e imaginando

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Não fales com estranhos


A minha mãe sempre me avisou:

“Filha, não fales com estranhos.”

“Não contes segredos do teu passado a homem nenhum.
Ele vai servir-se disso para te achincalhar quando lhe der jeito.”

“Não digas tudo o que fazes.
Os homens usam as nossas virtudes contra nós.
Servem-se da nossa sinceridade para nos controlarem.”

“Nunca trates homem nenhum como se fosse um rei.
Os homens gostam de ser maltratados.
Mulheres boazinhas são vassouras nas mãos deles.
Às más, eles tratam como rainhas.”

“Mesmo que gostes muito dele,
Ele não precisa de saber.
Se tiver medo de te perder, anda contigo nas palminhas.”

“Não aprendas a cozinhar,
Não queiras lavar, esfregar, engomar.
Se não, vais ter uma vida igual à minha."

"Estuda, não penses em namoros.
Vai trabalhar, ganhar o teu dinheiro.”

“Quando eles dizem que querem uma mulher para a vida,
Querem empregada grátis para todo o serviço, cama incluída.”

A minha mãe sempre me disse
Que amores são fantasias.
E que os livros de romances fazem mal à cabeça das raparigas.

Eu ouvia o que ela me dizia,
E não acreditava.
Pensava que ela era louca, que delirava.

Passei toda a minha vida a tentar provar que ela estava errada.

Mas afinal estava certa.
Tão certa!

E agora, mamã?
Posso voltar atrás e ficar pequenina outra vez?
Abracadabra, um dois, três?…

(Imagem no Pinterest)


Mulher das cavernas

A mulher agia de forma tão espontânea que até doía!
Falava com uma candura, uma inocência tal que desarmava.
Olhava os passageiro nos olhos e sorria.
Ás tantas levantou-se do seu assento, e vai de abanar ass janelas que não abriam.

Eu observava-a deliciada.
Que idade teria?
Como é que conseguia?
Atravessou o inferno sem chamuscar as barbas, ao que parecia.

-É o ar condicionado que não funciona! Se não forem as janelas, não sei!
Os passageiros que entravam apercebiam-se da cena.
Estranhavam.
Claro!
Uma motorista desorientada pelos corredores,
numa disputa com os vidros perros de um mecanismo que não abria.
-Boa! Grande porcaria!
Era gorducha, anafada, transpirava, praguejava e ria.

Por onde terá andado escondida?
Como permitiram que chegasse até agora assim, tão pura?
Uma mulher das cavernas, numa camioneta urbana,
com retoques de fêmea forte, e modos de lutadora.
- Ponto,não consigo Vamos embora! Não há-de ser nada!
Suava, toda corada, mangas arregaçadas.

Odiei os passageiros que não diziam nada.
Não a compensavam nem com uma palavra.
Estavam chocados, olhavam para o lado.
- Deixe estar, o calor também não é tanto.- e sorri-lhe animadora.
A minha admiração por ela cresceu.
Porque invejo sempre quem é diferente.
Quem não se moldou, nem vergou, nem se perdeu.

Durante a viagem apenas uma ideia me ocorreu:
Cuidadosamente despenteada”...
Será?...
Maldito cepticismo,
Veneno moderno que corroí por dentro,
E não deixa acreditar
nas poucas estrelas que sabem brilhar.

(imagem de Lora Zombie, tirada do Google)


sexta-feira, 14 de julho de 2017

Quem te perdeu de ti?



Quem te fez tanto mal assim?
Quem te usou, te feriu e te perdeu?

O que foi feito do teu sorriso bonito,
e por onde andam os teus suspiros dengosos?
Em que leito de rio se afogou a esperança que tinhas,
em que caixa guardaste a trança de menina?

Porque choras sempre,
até quando finges que ris?
De que lado queres cair?
Faz-te diferença ter aonde ir?

As histórias de fadas que te contaram,
quando deixaste de as acreditar?
Em que trenó sumiu o Pai Natal que costumavas esperar?

No tempo em que as ruas eram todas tuas,
lembras?
E cada dia era uma aventura que vivias...
como deixaste morrer o gosto de viver?

Quem?
Diz-me quem?
Quem foi?

Quem te fez tanto mal assim?
Quem te usou, te feriu e te perdeu?

E a imagem perdida no espelho
apenas diz:
Fui eu.

A quem pedimos contas por deixar de sonhar?



quinta-feira, 13 de julho de 2017

Vejo tanta gente que passa!...



Rosto encostado à vidraça, a ver a rua que passa…
Tantas pessoas, tanta gente!
Todos têm casa, certamente.
Quantas casas precisam de haver!
Gosto de ficar, a ver…

Vão apressados uns, devagar outros.
Recolhem depois de um dia a mais,
Ou de um dia a menos…
Quem sabe?
Quem sabe para aonde vão,
Quem os aguarda,
Aonde penduram o chapéu…

Parecem decididos e determinados.
Busco por rostos parecidos comigo.
Perdidos,
Deslocados.
Mas não.
Todos vão para um lugar.
Para casa, suponho.
Para casa.

Cheiro a canela,
Cheirinho a casa…

Recordo com o rosto na vidraça,
Outros tempos,
Que não o tempo que passa.

Lembro…
Canela, bolo de forno, cera amarela…
E vejo-a a ela.

Obrigada por nunca teres ido embora afinal.
Obrigada por teres escolhido ficar.

Triste, saio da vidraça.
Que importa se não sei o caminho de casa?
Não faz mal.
Sei a que cheira a canela,
Já tive bolo no forno, chão com cera amarela.
Agradeço a ela.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

A menina dança? Tem par, ou descansa?...



Deu-lhe a mão
Ajudou-a a descer.
Era muito velhinha a senhora.
Agradeceu a ajuda com um sorriso.
Apoiou-se no braço que ele lhe estendia com galanteria.
Tinha os cabelos brancos como farinha.
O rosto enrugado como um pergaminho.
A camioneta paciente esperava que ela descesse.
Os passageiros olhavam num tédio dormente.

Eles afastaram-se no seu passinho vagaroso.
Iam conversando os dois.
De que falariam?
Das compras, dos filhos, dos netos…

Certamente ele tinha tanta idade quanto ela.
Mas deu-lhe o braço.
Ajudou-a a descer.
Com galantaria.
Ela coquete sorriu, agradecida.
O homem da sua vida!
Uma vida tão comprida!...

Cuidadoso ele segue com ela.
Ainda a deve ver bela.
Garboso, vê-se que foi um jovem vigoroso.
Agora são um casal idoso.
E caminham devagarzinho pelas ruas, e avenidas.

Que Deus os abençoe e preserve,
Que a nenhum dos dois leve,

E que a noite quando vier, não os separe e seja breve.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Desilusões, somos desilusões


- Vou lá, e peço as contas!
Quero aproveitar os anos que me restam!
Não mais picar o ponto e suspirar pela saída!
Chega de desperdiçar anos a dormir em cima de papéis e mais papéis.
A vida está lá fora à minha espera.
E um raio me parta se não vou agarrá-la!
Ah, grand’Alentejo!
Uma herdade, uma horta, algumas galinhas, sossego…

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- Então? Correu bem?
O que disseram?
Ficaram boquiabertos, não? Imagino!...
Gostava de ter lá estado contigo.
És um exemplo, caramba!
Qualquer dia faço como tu.
Farto disto também.

- Hum, pois….

- Pois?

- Sabes como é…
Assinei um acordo, foi melhor…
Tinham que me dar uma pipa de massa.
Mas por mim até prefiro assim…

- Acordo? Mau…
Mas vais embora, ou não vais?
O Alentejo, a herdade, as galinhas?...

- Vou para o desemprego. Durante uns tempos fico por cá.
Estás a ver… o dinheiro dá sempre jeito.

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Eles têm-nos agarrados pelas partes fracas.
Atacam-nos pela algibeira, pela boca, pelas zonas baixas.
Corrompem-nos, matam os nossos ideais.
Tomam banho nas nossas aspirações.
Mas será que têm culpa?
Desistimos da pureza dos nossos sonhos, vendemo-nos por tuta-e-meia,
Como meretrizes batidas de rua.
Fracos, somos fracos.
Desilusões, somos desilusões.


Contos de fadas


Pessoas há que ficam connosco para sempre.
A sua presença nas nossa vidas,
não depende da proximidade.
Não depende de repartir cama, ou mesa.
Acontece para lá de qualquer vontade.

Há quem dê a esse sentimento o nome de amizade.
Também lhe chamam amor.
Almas gémeas, vidas antigas...
Não sabemos o que é ao certo.

A mão saberá porque se prende ao braço?
O pé perceberá porque não vive sem perna?...
É porque sim.
Sem razão.

Quando todos os outros fracassam, e se desmoronam,
e se transformam nos montes de sal grosso que sempre foram,
existem aqueles que estão aonde sempre estiveram.
Mesmo quando não os víamos.
Perto de nós,
Como sonhos sem voz.

Não sei se todos temos alguém assim.
Gosto de pensar que sim.
Acontece aonde não há fim.
É lá que vivem as fadas em mim.