Desaprendi de respirar



De tanto suster o ar para não engolir fumo,
De tanto evitar a humidade e o bolor,
De tanto teimar em não desmaiar,
Desaprendi de respirar.

E hoje já não inspiro,
Apenas suspiro.

Deixei de viver,
Passei a não ser.

Desaprendi de respirar…

Logo eu que amava o mar!
Logo eu que fazia amor nas areias!
Eu que vivia com as estrelas a paredes meias…

E vieram de longe
Aqueles que ainda respiram,
Para verem como eu fazia,
Como conseguia.

Sem respirar?
Impossível!
É risível.
Incrível.

Virei atracção de circo de pulgas.
Virei homem canhão,
Mulher barbuda,
Aberração.

Desaprendi de respirar,
Descompassei o coração.
Caiu-me o mundo da mão.

Para que universo fugiu o meu ar?
Quem usa o meu oxigénio?
Pobre farsante numa palestra,
Num convénio.
Dou por mim quase morta.
Dou por mim por trás da porta
À espera que me venham buscar.

Desaprendi,
Desaprendi de respirar.


Comentários

Mensagens populares deste blogue

"Vamos aquecer o sol"

O homem desesperado

Cheguei a Casa