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A mostrar mensagens de Setembro, 2017

Os faca no bariga

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Espeto os facas no bariga! Espeto mesmo! Mas em vez disso um sorriso polido. Um sorriso bonito. É o que eu digo! E a mula da velha rezingona... A fazer-se de fina. A dar-se ares de ter importância. Que não, e que não. Que não lhe parecia... Não haveria mais nada? Que pobreza!...
Ah, espeto! Espeto! Os facas no bariga da passa seca. Tanta luta para largar uns tostões! Avareza! Dava-lhe um sacão na bolsa, ia mala, ia tudo!... Grande besta!
Pingo no nariz da ginja chupada. No nariz torcido. Finge que quer e não quer. Avalia e apalpa. Pergunta-me quanto custa. Preço? Para si é de graça, faço-lhe esse favor. Esse e o outro de não lhe vazar as tripas. Que obrigada,muito obrigada! Não é grande coisa, mas... Some-te de mim criatura.
Espeto os faca no bariga Desanda asna cagueira. Não me sujes a banca, não me arruínes a feira!

Não importa sol ou sombra...

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Sombras à frente do sol. Sombras que ofuscam o sol.
É o sol que se deixa ofuscar, ou as sombras que o conseguem tapar?
Sol, rei da humanidade! Sol, inspiração dos mortais!… Porque te dizem tão poderoso assim, se qualquer vulto te pode embaraçar?
Serão as sombras menos valiosas, por não conseguirem brilhar? Mas brilhos são só vidros a faiscar, espelhos acabados de pintar.
Já as sombras… Vultos de mistério que a noite encobre e embala.
Sombras não são nada. São coisa nenhuma.
Sombras não pioram, São céu encoberto. A sombra alimenta o escuro, O escuro só existe se tiver sombras por perto.
Aposto no seguro. Durmo nas sombras, Com elas me deito, e nelas desperto.

O pastor morreu

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A tarde começava a morrer entre tons de ouro e carmim. Já a noite batia devagarzinho à porta das estrelas. O céu preparava uma despedida apoteótica de nuvens e passarada.
Tudo acontecia com era suposto acontecer.
Mas o pastor morrera e as ovelhas não tinham como entrar nos currais. O pastor jazia caído por baixo de uma oliveira. E as ovelhas fitavam o horizonte numa mansidão sem fim.
O vento fazia esvoaçar a fralda da camisa do pastor. Chapéu desabado, lancheira desamparada perto do cajado. Tão quieto! Tão sossegado.
Mas este poema não é sobre o pastor. Não, não é. Pastores morrem todos os dias. Pastores têm quem os chore. Sabem, percebem.
É sobre as ovelhas que escrevo. As ovelhas mansas que esperam.
As ovelhas que têm frio. Que estão desacostumadas a ficar até tão tarde. O relento arrepanha-lhes a lã enrodilhada.
Não se queixam. Não ralham. Não nada.
Saberão que tinham um pastor? Saberão que ele jaz em baixo da oliveira? E morte? Será que sabem o que é?
A tarde está dourada. As ove…

A minha vida nunca é igual à dos outros

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Os outros fazem… Os outros dizem…
Quem são os outros?
Os outros tinham uma vida mais feliz. Riam com maior frequência.
Isso não é para nós. Não fazemos tal coisa. Deixa isso para os outros.
Quem são os outros?
Qualquer pessoa fora de casa era um outro. Quem não fosse um de nós, era um outro. O mundo era dos outros.
Quantas vezes não quis eu também ser um outro? Perder-me nos labirintos misteriosos da vida dos outros… Porque todos eles eram mais capazes e melhores, Imperfeitos mas poderosos. E nós… Pobres de nós. Éramos vitórias morais em campeonatos adiados. Éramos snobs enfatuados, Dados viciados. Fatos amarrotados.
Ah, os outros!... Os eternamente outros! O encanto que tinham! Travessos e reguilas. Bastardos e estupores. Desconhecidos e tentadores.
Outros. Tão diferentes de nós. Nós,

E não sentiu nada de nada

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Naquela manhã Ivan acercou-se de Raquel e falou-lhe de amor. Disse-lhe o quanto a gostava. Mostrou-se conhecedor dos seus problemas, e admirador das suas lutas. Fez-lhe citações poéticas sobre a coragem e a persistência dela. Deixou claro que não ignorava os desafios penosos de que eram feitos os seus dias.
Usou palavras bonitas e apaixonadas. Recorreu à entoação certa, e aos trejeitos apropriados. Até a voz lhe tremeu um pouco nas deixas exactas.
Naquela manhã Ivan acercou-se de Raquel e falou-lhe de amor.
Ela escutou-o com a educada polidez com que se escutam os ocasionais. Não se retraiu ao contacto da mão dele no seu ombro. Permitiu que ele se lhe encostasse languidamente. O mais certo era não se opor a que de noite, ele entrasse nela.
Mas nas suas reacções já não houve lugar para a emoção. Nas respostas que lhe deu, nunca ela falou de sentimentos. Manteve os olhos enxutos, e o coração compassado.
Logo ela que era uma mariquice costumeira de choro e lágrimas fáceis!...
Naquela ma…