E não sentiu nada de nada



Naquela manhã Ivan acercou-se de Raquel e falou-lhe de amor.
Disse-lhe o quanto a gostava.
Mostrou-se conhecedor dos seus problemas, e admirador das suas lutas.
Fez-lhe citações poéticas sobre a coragem e a persistência dela.
Deixou claro que não ignorava os desafios penosos de que eram feitos os seus dias.

Usou palavras bonitas e apaixonadas.
Recorreu à entoação certa, e aos trejeitos apropriados.
Até a voz lhe tremeu um pouco nas deixas exactas.

Naquela manhã Ivan acercou-se de Raquel e falou-lhe de amor.

Ela escutou-o com a educada polidez com que se escutam os ocasionais.
Não se retraiu ao contacto da mão dele no seu ombro.
Permitiu que ele se lhe encostasse languidamente.
O mais certo era não se opor a que de noite, ele entrasse nela.

Mas nas suas reacções já não houve lugar para a emoção.
Nas respostas que lhe deu, nunca ela falou de sentimentos.
Manteve os olhos enxutos, e o coração compassado.

Logo ela que era uma mariquice costumeira de choro e lágrimas fáceis!...

Naquela manhã Ivan acercou-se de Raquel e falou-lhe de amor.
E era tarde.
A porta que tinha estado tanto tempo aberta, encontrava-se agora fechada.

Ele soube que a tinha perdido quando a viu sorrir polidamente.
Ela percebeu que não o amava quando não sentiu nada de nada.
Nem pena, nem mágoa, nem raiva.
Apenas um enorme, desolador e infinito nada.
Nada vezes nada.


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