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A mostrar mensagens de Outubro, 2017

"Agora é tarde. A Maria é morta.

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Quando naquele dia a Maria Andrade da Silva saiu de casa sabia que ia morrer. Certo, dirão vocês. Todos sabemos que vamos morrer, e daí? Pois, mas a Maria sabia exactamente que aquele era o dia em que ia falecer. Como?? Porque ela mesma escolhera aquela data para se suicidar.
Era mais uma tarde em que a rua serpenteava languidamente frente aos olhos dos transeuntes. “Todos têm uma rua, a que chamam sempre sua…” Conhecem estes versos? São lindos! Mas para quem não tem nenhuma rua a que chame sua, podem ser os versos mais tristes do mundo. A Maria não tinha nenhuma rua que fosse sua de facto, mas em troca todas as ruas, ruelas e avenidas lhe tinham sido deixadas em herança. Se o pai ao desencarnar não lhe deixara testamento lavrado em cartório, deixara-lhe ao menos aquele gosto característico dos Andrade da Silva por passear, andar, caminhar. A Maria era uma passeante nata, e aquele era a rua aonde costumava passear nos últimos vinte anos.
O mais curioso foi que ninguém das suas relações …

Não me espreites por baixo da saia

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Não me espreites por baixo da saia. Nem tudo o que tenho é para mostrar. Se está tapado, É porque deve ficar reservado. Limites não existem apenas nos mapas de geografia.
Não me espreites por baixo da saia. Deixa que os folhos cubram o que é apenas de mim.
Que te interessa, Que te pode interessar a forma como respiro?
Nada sabes sobre quem sou! Nunca quiseste aprender de onde vim! Pouco te importa aonde vou. És incapaz de acompanhar o meu navegar. Então atém-te apenas ao que te dou, Aprende a respeitar.
O fogo que me queima no vento sul, A febre que me devora inteira, A urgência de ir, que é a minha bandeira… Tudo isso é só meu. Meu segredo interdito.
Não vou explicar-to! Não vou mostrar-to!
Fica na raia Contrabandista de sonhos! Não me espreites por baixo da saia.

Capitão Quintas (ex-combatente em Goa), RIP

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O Capitão Quintas veio maluco da guerra de Goa. Tresloucado, diziam. Doido varrido, Alucinado.
Cantava e declamava na rua. Enrolava cigarros que nunca fumava. Em vez de fumar, Punha-se a dançar.
Era um pândego!
Não trabalhava, Mas também como haveria de trabalhar? Uma parte dele ficara na Índia, Na terra quente de uma Goa distante.
Era um dos melhores amigos do meu pai. Um dos ódios de estimação da minha mãe.
Lembro-me de o ver. Estirado ao sol, cafrealizado, amulatado, um soldado cansado.
Eu gostava dele. Contava histórias diferentes, de elefantes, concubinas e marajás. Comia arroz com as mãos, almoçava sentado no chão.
Lembro-me bem... O meu pai de fato engomado, de sapatos engraxados. O Capitão Quintas sempre amarrotado, montado nuns tamancos desengonçados...
Velho e abandonado, persona non grata...

Natal, haverá sempre Natal

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Naquele Natal não havia árvore de Natal. E o sapatinho permanecia vazio. Fazia frio, e não tínhamos sol lá fora.
A mesa era solitária sentinela, a cozinha não cheirava à costumeira canela. Nem tínhamos luzinhas que piscassem, ou figuras que alindassem a janela.
Estávamos longe de casa. O Pai Natal não sabia o caminho. Nem tal era de admirar, pois não havíamos voado sobre o mar?...
Na cabeça do meu pai nasciam mais cabelos brancos, os ossos parecia que lhe mirravam, mingavam de tamanho.
Aquele Natal foi o principio desta vida.
Nunca mais o som do gelo no copo de whisky, nunca mais o papel com cavalinhos verdes e vermelhos...
A humidade era nossa companheira, e o bolor a nossa bandeira.
Vivíamos numa caverna, que não era gruta, nem ficava em Belém. Era uma manjedoura pequena, aonde mal cabia uma naufragada família moderna, que não era sagrada nem profana. Aonde nada voltou a ter nome definido, e aonde até o Natal podia ser esquecido.
E depois disseram-me que não existia Pai Natal, nem …

Mulher da rua

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Mais uma entre tantas outras. Movia-se com graça felina. Oferecia sorrisos, e olhares. Era uma estrela cadente, numa cadência que não surpreendia.
Quem a visse pouco dava por ela, Tão com todas se parecia. No entanto era diferente, Distante, ausente.
De saia curta e saltos muito altos, Baton vermelho nos lábios, Cheiro de perfume barato.
Porque não seria ela igual? Vendia-se como todas, afinal...
Ela olhava e não via. Acreditava numa fantasia, Era anjo caído no lodo, Mas a áurea ainda ardia.
-Tu, anda cá! Nem respondia. Se gostava, ia. Fazia apenas o que queria. - Julgas-te mais do que as outras?
Ela sabia. Sabia como o mundo a via. Mas no coração ainda ouvia A voz da mãe que tivera um dia.
A voz dizia que ela era uma princesa, De rara beleza. Uma pérola presa Numa concha de nostalgia.
Não era uma cadela como todos diziam. Era a menina da sua mãe. Podia estar quase nua, Viver na rua, Ser minha e ser tua, Mas sabe-se lá o que o amanhã traria?…
Sonha menina reguila! Sonha enquanto o cliente refila. Nos teus sonhos não chafur…

Quis que tudo fosse diferente

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Anani, ananão, Ficas tu e eu não…
O vulto cada vez mais pequeno. Viro-me para trás, Uma vez, e outra vez.
Nariz esborrachado na vidraça, Ela lá está.
A mão move-se num estranho gesto de despedida, Um sorriso cristalizado no semblante.
Anani, ananão… - A mãe vai embora, não é?
Ficas tu e eu não… Anani, ananão.
Tirei-a da minha vida. Apenas posso aspirar a esta eterna despedida.
Um milhão de vezes  a reneguei. Não fui capaz. E agora vou, ela fica.
No vazio dos meus silêncios  estão os gritos de outrora. Nos meus sonhos  de escuridão, ela ainda chora. Ainda me chama, reclama, Faz chichi na cama.
No meu coração ficaram os beijinhos, Os abracinhos.
- Gota mim? Anani, ananão…
Tenho tantas saudades dela! Tantas, tantas! A minha princesinha a quem cortaram as tranças…
Sou uma crescida. Não se chora.
Anani, ananão. Ficas tu e eu não…
Um dia, minha querida, Troco de lugar contigo, Tu menina de novo, e eu outra vez  pequena.
Anani, ananão Sem nada para provar, Sem ninguém para nos mandar calar.



P.S. Perdoa…

Inocência das pessoas

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Às vezes vejo a inocência nas pessoas, e quase sem querer gosto delas.
Vejo o olhar receoso, o sorrir nervoso… Um gancho no cabelo colocado com zelo. Aquele medo de não ser aceite, e a vontade tola de que gostem de nós.
Vejo o desejo absurdo de agradar. Vejo a contenção nos suspiros cautelosos, nas respirações apenas adivinhadas.
Que tontas são as pessoas!
E que pueril candura se esconde em cada gesto estudado. Mesmo quando fingem, mesmo quando representam, as pessoas são mais puras do que aparentam.
Gostam de parecer sofisticadas, superiores, complicadas… Mas não. Não são.
Quase sempre transparentes, as pessoas inocentes são imaginação e coração, são coragem e terror.
Às vezes vejo a inocência nas pessoas, e sinto-me menos sozinha. Sinto que não é só minha esta forma de ser.
Pessoas… Tentáculos da mesma planta. Um todo que do chão se levanta, E no ar se escoa.

A bruxa das batatas, e das moeditas

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Juntámos todas as moedinhas, mesmo as mais pequeninas. Reunimos o suficiente para meia dúzia de batatas. Batatas com ossos, ossos com o raio que os parta.
Contentes levámos o nosso pequeno tesouro. Meia dúzia de tostões que para nós eram ouro.
Calculámos o peso dos tubérculos.
Uma, duas, três, vá lá quatro batatas rosadas e bonitas. Um quilo? Sim? Chega, obrigada. E apresentámos as moeditas.
A mulher era velha e feia. Tinha uma verruga no olho, a fazer lembrar um treçolho.
Vestia toda de preto, o nariz grande e erecto, os cabelos farripas embranquecidas, as rugas crateras desconhecidas. na boca valetas como fossas abertas.
Foram pedir esmola à porta da Igreja? Não quero cá porcaria desta!
E nós que na altura não sabíamos de direitos, nem esgrímiamos mais valias, só conhecíamos o mundo das ruas, só sabíamos a fome que tínhamos, viemos embora sem as batatas. Foram inúteis as nossas moedinhas.
Nessa noite os ossos com nada, foram ainda mais rijos, mais raios que os parta.
A bruxa, essa deve ter dançado num sabat de …

Maningue xunguila (muito bonita)

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Na quente noite africana, corpos nus dançam. Transpiração misturada com sangue e lágrimas. O tambor ecoa aonde as hienas bebem, nos charcos parados. No mato os leões rosnam e aprovam. Os elefantes derrubam arbustos enquanto escutam.
África fala. África dança. Mãe, olha nós...
Negros, brancos, mulatos, filhos sem mãe, mortos vivos, errantes e amaldiçoados.
A carapinha embrulha-se nos cabelos menos ondulados, a catinga cheira a perfumes caros. As mamanas exibem seios perfeitos e bem cuidados. Os madalas não querem ser grisalhos, e os mufanitas viraram pirralhos. Os ventres estão fecundados, mas os rebentos são bastardos.
Na noite quente, África dança. África rebola nos traseiros ensandecidos dos feiticeiros que oram. Mãe, olha nós...
Há quem diga que és mulher da vida. Que te vendeste, estás perdida. Outros dizem que continuas uma cabrita bonita, o corpo negro coberto de capulana e chita.
Mas tu, indiferente a todos danças. E pulas.
Pára África, pára com a tontaria! É noite, está escur…

Hoje não!

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Hoje estou cansada. Cansada de fazer comida que ninguém vai comer. Cansada de limpar o pó que ninguém quer ver limpo.
Hoje estou cansada. Cansada de acreditar que existem contos de fada. Cansada de perseguir ainda sonhos e fantasias Quando devia ter juízo e sensatez.
Tão cansada!
Amanhã estarei melhor talvez. Amanhã terei de novo forças para batalhar.
Mas isso é amanhã, Porque hoje não quero mais nada. Preciso de ficar encolhida no meu cantinho, a chorar baixinho. Preciso de escutar o barulho que o tempo faz ao passar. Tic-tac, tic-tac…
Tudo tão inútil! Tudo tão vazio.
Não bulam comigo, Não me apoquentem, nem me chamem. Não estou para ninguém. Fugi, desertei por esta vez apenas.

Hoje estou muito cansada.

Para o meu filho:

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Os muito novos julgam muito depressa. Por favor, meu filho não tenhas pressa. Existe muito mais para além daquilo que vês. Nem tudo na vida pode ser posto em conversa.
É bem capaz que só percebas lá mais para a frente, mas no mundo existe muita gente que não quer saber da gente.
O verdadeiro valor de uma pessoa, está no seu coração, na sua cabeça.
Não importa se alguém só é bom porque nem sabe ser mau. Quantos maus têm capacidade para serem bons, e não o são?
Dá valor a quem te quer bem. Estima quem te apreça. Aceita o afecto que te oferecem, porque afecto não abunda por aí. Nunca faças pouco caso de alguém que gosta de ti.
Abstém-te de condenar, não és ninguém para apontar. Quem te deu a incumbência de sentenciar?
Um dia aqueles que julgas já foram como tu, novos, bonitos, com sonhos e esperanças. Foram crianças. Que sabes tu sobre o que a vida lhes fez? Consegues identificar um dos porquês?
Lembra-te que a vida é uma hora que passa, olha para quem te espreita atrás da vidraça. Beij…

Loiça amarela

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Naquele dia, A noite viera mais cedo. Nem era escuro ainda, Mas a luz fugia.
Era antiga aquela mania de nos deitarmos com as galinhas. Ainda lá fora a vida acontecia, E já em casa a noite descia.
Naquele dia voaram pratos e canecas. Voaram bonecas e quinquilharias. O ruído da loiça a partir encheu o fim de tarde. E era um mar amarelo de cacos espalhados. Atirados do quarto andar, Partidos com a raiva de uma vida.
A boneca chamava-se Paulinha, E era minha.
A boneca tinha cara de prostituta, Por isso voou pela janela, Foi morrer perto da loiça amarela.
Naquele dia foi um inferno.
Os gritos eram tantos, Que até as montanhas estremeciam. (Mas também quando somos pequenos, Qualquer tamanho nos parece em demasia…)
Vinha tudo da metrópole, Viera tudo amaldiçoado, Por isso os cacos eram por todo o lado.
Esperei que passasse, Porque sempre acabava por passar. Lá dentro ouvia a minha mãe chorar. Porque sempre acabava por chorar.
Amanhã de manhã podia começar a contar. A contar os dias até eles voltarem a falar.
Se ao menos to…

Mascote

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O Mascote tinha ficado para trás, Quando a dona morreu, E o dono se perdeu num tanto me faz. O Mascote foi deixado, Esquecido, e abandonado.
Herdámo-lo juntamente com os tarecos velhos, As mantas bolorentas, E o frio nos artelhos.
Fugidos de casa, Sem pátria e sem lar, Éramos parecidos ao Mascote. Gato velhote, Zurzido a chicote.
Ele miava noite e dia, Numa dolorosa agonia. Chamava pela dona, Clamava por companhia.
Nós chorávamos em silêncio, Orávamos em segredo. Até dos foguetes tínhamos medo. Escondidos da curiosidade das vizinhas Jantávamos côdeas, E ele espinhas.
O Mascote velhote Foi-se embora um dia. Acho que se cansou de esperar, Desistiu de acreditar. Ficámos sem a sua companhia.
Quem se encontra órfão sofre melhor em conjunto. Ele era órfão de dona, Nós éramos párias do mundo.



P.S. O gato Mascote, na verdade chamava-se Pirilau, mas achei melhor mudar-lhe o nome para  algo mais harmonioso. E não se foi embora, morreu de saudades.