A bruxa das batatas, e das moeditas




Juntámos todas as moedinhas,
mesmo as mais pequeninas.
Reunimos o suficiente para meia dúzia de batatas.
Batatas com ossos,
ossos com o raio que os parta.

Contentes levámos o nosso pequeno tesouro.
Meia dúzia de tostões que para nós eram ouro.

Calculámos o peso dos tubérculos.

Uma, duas, três, vá lá quatro batatas rosadas e bonitas.
Um quilo? Sim?
Chega, obrigada.
E apresentámos as moeditas.

A mulher era velha e feia.
Tinha uma verruga no olho,
a fazer lembrar um treçolho.

Vestia toda de preto,
o nariz grande e erecto,
os cabelos farripas embranquecidas,
as rugas crateras desconhecidas.
na boca valetas como fossas abertas.

Foram pedir esmola à porta da Igreja?
Não quero cá porcaria desta!

E nós que na altura não sabíamos de direitos,
nem esgrímiamos mais valias,
só conhecíamos o mundo das ruas,
só sabíamos a fome que tínhamos,
viemos embora sem as batatas.
Foram inúteis as nossas moedinhas.

Nessa noite os ossos com nada,
foram ainda mais rijos,
mais raios que os parta.

A bruxa, essa deve ter dançado num sabat de feitiçarias.
Velha malvada!
Que se empanturre de batatas,
Em caldeirões temperados com ervas daninhas!



P.S. Por muitos anos que viva, nunca vou esquecer o dia das batatas, e das moedinhas.

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