"Agora é tarde. A Maria é morta.




Quando naquele dia a Maria Andrade da Silva saiu de casa sabia que ia morrer. Certo, dirão vocês. Todos sabemos que vamos morrer, e daí? Pois, mas a Maria sabia exactamente que aquele era o dia em que ia falecer. Como?? Porque ela mesma escolhera aquela data para se suicidar.

Era mais uma tarde em que a rua serpenteava languidamente frente aos olhos dos transeuntes. “Todos têm uma rua, a que chamam sempre sua…” Conhecem estes versos? São lindos! Mas para quem não tem nenhuma rua a que chame sua, podem ser os versos mais tristes do mundo. A Maria não tinha nenhuma rua que fosse sua de facto, mas em troca todas as ruas, ruelas e avenidas lhe tinham sido deixadas em herança. Se o pai ao desencarnar não lhe deixara testamento lavrado em cartório, deixara-lhe ao menos aquele gosto característico dos Andrade da Silva por passear, andar, caminhar. A Maria era uma passeante nata, e aquele era a rua aonde costumava passear nos últimos vinte anos.

O mais curioso foi que ninguém das suas relações se apercebeu de que aquela podia ser a última vez em que a Maria descia a rua. Nada nas suas maneiras, no seu sorrir ou modo de andar denunciava, ainda que suspeitosamente, que ela levava já em mente terminar com a vida. Balanceava as ancas num ritmo que era só dela, e que fazia os homens salivar. Sacudia a longa crina morena como era seu hábito fazer. No decote espreitava como era usual o volume harmonioso dos seios, e no requebro da cintura esbelta anunciavam-se mil promessas e ousadias. A Maria era linda! Uma linda mulher.

O que pensaria naquele preciso momento em que pela derradeira vez se cruzava com rostos conhecidos de todos os dias? Será que formulava um voto de despedida a cada um? Dirigiria uma prece silenciosa em favor dos aflitos, dos tristes, dos abandonados? Pretenderia consolar ainda alguém com um final arremedo de ternura? Escutaria os costumeiros galanteios, experimentaria alguma espécie de prazer em sentir-se cortejada?

Temos a tendência de pensar que se esta, ou aquela outra coisa tivesse acontecido, poderia ser o bastante para que fulano, ou sicrano não se matasse. E no caso da Maria? O que se poderia ter passado para que ela mudasse de ideias naquela tarde? Acreditar que pode estar nas nossas mãos salvar alguém é incrivelmente assustador. Se acreditarmos piamente nessa premissa, damos por nós a caminhar na vida em pezinhos de lã, sempre à escuta, à espreita… Se crermos que de um gesto nosso, pode depender acrescentar alguns anos na existência de um nosso semelhante, como será possível continuar a levar a mesma vidinha despreocupada de sempre?

Não sei o que teria sido necessário acontecer para que a Maria colocasse de lado a ideia fixa de cometer suicídio. Nem sei tão pouco de nenhuma razão concreta que ela pudesse ter para desejar um ponto final definitivo. Bonita, inteligente, sensível, simpática, afável, generosa, sempre pronta para escutar, apoiar e animar qualquer pessoa, a Maria era uma mais preciosidade para quem tinha a boa sorte de a ter como amiga.

Apesar de todas as evidências que pudessem indicar o contrário, o certo é que a Maria queria morrer, e aquela tinha sido a tarde eleita entre todas as outras tardes, manhãs e noites, para ser a última tarde da sua vida. Não é que fosse uma fixação nova, nada disso. Desde há muito tempo que a Maria equacionava seriamente a hipótese de desaparecer. Desligar o interruptor, descansar, desistir. Parar de sofrer. Só não o fizera antes por causa da teimosa esperança que sempre tinha, de que tudo pudesse ainda ficar diferente. No fundo queria que a vida se assustasse com o desalento dela, e que por medo de a perder, retirasse de dentro da cartola a felicidade com que sonhava.

Enquanto supôs que essa felicidade tão esperada era possível, a Maria foi aguentando. Contrariedades, desgostos, perdas e desilusões iam-se abatendo sobre ela, como águas de um mar revolto de encontro aos rochedos. Ela aguentava. Más palavras, modos bruscos, planos gorados sucediam-se numa cadência de fazer dó, mas ela suportava. Suportava tudo, a Maria. E o mais irónico é que ela suportava um peso que ninguém mais conhecia.

As pessoas viam-na sorrir, e acreditavam-na feliz. Como é simples iludir quem se quer deixar iludir! Como é fácil aparentar que não se quer, não se está, nem se é, quando os espectadores em volta estão mais preocupados em contemplar o próprio umbigo do que inclinados a prestar atenção aos problemas alheios. Alguém nos dá os bons dias e nos pergunta de forma automática como estamos. Para que perguntam se seguem o seu caminho logo em seguida? Para que perguntam se não querem saber? À Maria muita gente perguntou se estava bem, quiseram saber como tinha passado... Mas ninguém se deteve o tempo suficiente para esperar pela resposta.

Ah, estamos então a especular!, dirão alguns de vocês. Especulamos sobre se a Maria não se teria morto caso surgisse alguém confidente pelo caminho!...Especulamos sim!, digo eu. Especulamos porque isso é tudo o que nos é dado fazer. Especulamos porque agora é muito tarde, tarde demais.

Remorsos? Deveríamos sentir remorsos por todas as Marias que se cruzam connosco a caminho da morte, e a quem não damos oportunidade de desabafar? Mas então para que servem os psicólogos, psicanalistas, psiquiatras e todo esse exército prestimoso de anjos e fadas prestáveis e acessíveis, com todo o seu séquito de remédios, calmantes e panaceias? Sim, para que serviriam eles, se nos coubesse a nós, ignorantes mortais refazer os pedaços amachucados da alma dos outros? E os sofás com cheirinho gostoso de bom cabedal, ficariam sem préstimo? E o relógio que faz tique-taque com hora marcada para ressoar, seria atirado negligentemente para o fundo de uma anónima gaveta? Ná! Não temos que ter remorsos, ou dor no coração pelos que escolhem partir. Este mundo é uma selva. Cada um por si. Temos que cuidar já de nós, dos nossos! Uma canseira! Ter ainda que prestar atenção ao sofrimento dos outros? Que se curem, que se tratem, e em última instância que vão morrer longe, para não cheirarem mal perto dos nossos imaculados lares modernos e tecnológicos!!...

Pois, mas e quando a Maria é um dos nossos, um de nós? E quando a Maria que passa por nós, ágil e airosa a caminho da morte, na sua blusa decotada é a nossa mãe, a nossa irmã, a namorada querida? E quando a Maria é Manuel e assume o rosto do nosso pai, do nosso marido, do nosso filho amado? Há pois, porque as desgraças não acontecem só aos outros!... Todas as Marias são a Maria de alguém...

Naquela tarde houve pranto e lágrimas em casa da Maria. Quando ela não apareceu à hora costumeira, e quando dela só sobrava uma carta de despedida deixada com timidez na mesa de cabeceira, o mundo dos Andrade da Silva desabou. Mas porquê? Porquê, santo Deus? Se ela tinha tudo, se não lhe faltava nada!... Vá-se lá saber, vá-se lá saber...
Um amigo meu, especializado na área da psicologia humana, disse-me um dia que quando existe a verdadeira intenção de suicídio, podemos até tirar a faca da mão do suicida, mas à primeira oportunidade ele vai tentar de novo. O suicídio nem sempre encontra explicação entre as probabilidades lógicas, e obviamente que não é culpa de ninguém quando alguém decide colocar termo à própria vida. Não está nas nossas mãos evitá-lo, é certo. Mas desde que a Maria se matou, o peso e a sensação de culpa tomaram conta de todos os familiares e amigos mais chegados. Uns recordam-na como a mulher risonha e bonita que era, outros lembram-se dela como a amiga altruísta e sempre disponível que foi. Há quem conserve na lembrança o som cristalino da sua gargalhada, a forma amorosa como encarava o pôr-de-sol, a delicia que provocava quando pousava a mão fresca e esguia numa qualquer fronte febril.

A maioria dos conhecidos da Maria, que se cruzaram com ela naquela tarde fatídica entre todas as tardes, não consegue esquecer a forma elegante como desceu a rua que não era dela, mas que era tão sua. Nenhum deles sabia que era a última vez em que a viam. E se tivessem sabido?

Nunca sabemos de facto se aquela é a última vez em que vemos alguém que nos é querido. Não conseguimos segurar quem gostamos à força de carinhos e abraços, mas podemos assegurar que se eles se forem amanhã, a recordação que guardaremos desse último encontro será a melhor possível. Todos temos Marias e Manuéis em casa. Sabe-se lá se algum deles, dos nossos, não medita em silêncio sobre a sua última tarde entre nós?

Vamos aproveitar as pessoas de quem gostamos enquanto as temos! Só somos grandes e especiais aos olhos de quem nos quer bem. A cada pessoa querida que nos morre, é como se nos cortassem centímetros de altura e fôssemos encolhendo, minguando de tamanho e de importância, até nos tornarmos pequenas migalhas que o vento dispersa e os pardais enjeitam. Vamos perdendo representação e estatura até sermos uma Maria que se senta e escreve a carta de despedida, sai depois para a rua que não é sua, e caminha a passo compassado para a morte.


P.S. Tu que tens uma Maria e um Manuel dentro de casa...Tem paciência connosco. A vida passa depressa, só mais um pouco e estamos de partida.

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