Capitão Quintas (ex-combatente em Goa), RIP



O Capitão Quintas veio maluco da guerra de Goa.
Tresloucado, diziam.
Doido varrido,
Alucinado.

Cantava e declamava na rua.
Enrolava cigarros que nunca fumava.
Em vez de fumar,
Punha-se a dançar.

Era um pândego!

Não trabalhava,
Mas também como haveria de trabalhar?
Uma parte dele ficara na Índia,
Na terra quente de uma Goa distante.

Era um dos melhores amigos do meu pai.
Um dos ódios de estimação da minha mãe.

Lembro-me de o ver.
Estirado ao sol,
cafrealizado,
amulatado,
um soldado cansado.

Eu gostava dele.
Contava histórias diferentes,
de elefantes,
concubinas e marajás.
Comia arroz com as mãos,
almoçava sentado no chão.

Lembro-me bem...
O meu pai de fato engomado,
de sapatos engraxados.
O Capitão Quintas sempre amarrotado,
montado nuns tamancos desengonçados...

Velho e abandonado,
persona non grata...
Morreu como viveu,
sozinho na sua cubata.

O meu pai beijou-o ao de leve,
num adeus sentido ao Capitão que abalava.
Logo o meu pai que nunca beijava…


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