Loiça amarela



Naquele dia,
A noite viera mais cedo.
Nem era escuro ainda,
Mas a luz fugia.

Era antiga aquela mania de nos deitarmos com as galinhas.
Ainda lá fora a vida acontecia,
E já em casa a noite descia.

Naquele dia voaram pratos e canecas.
Voaram bonecas e quinquilharias.
O ruído da loiça a partir encheu o fim de tarde.
E era um mar amarelo de cacos espalhados.
Atirados do quarto andar,
Partidos com a raiva de uma vida.

A boneca chamava-se Paulinha,
E era minha.

A boneca tinha cara de prostituta,
Por isso voou pela janela,
Foi morrer perto da loiça amarela.

Naquele dia foi um inferno.

Os gritos eram tantos,
Que até as montanhas estremeciam.
(Mas também quando somos pequenos,
Qualquer tamanho nos parece em demasia…)

Vinha tudo da metrópole,
Viera tudo amaldiçoado,
Por isso os cacos eram por todo o lado.

Esperei que passasse,
Porque sempre acabava por passar.
Lá dentro ouvia a minha mãe chorar.
Porque sempre acabava por chorar.

Amanhã de manhã podia começar a contar.
A contar os dias até eles voltarem a falar.

Se ao menos todos se dessem bem,
Que bom que seria!...



P.S. No dia seguinte, os montes de loiça amarela partida reluziam na terra do lixo, para aonde atirávamos os sacos de plástico atados assim que escurecia.

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