Mascote



O Mascote tinha ficado para trás,
Quando a dona morreu,
E o dono se perdeu num tanto me faz.
O Mascote foi deixado,
Esquecido, e abandonado.

Herdámo-lo juntamente com os tarecos velhos,
As mantas bolorentas,
E o frio nos artelhos.

Fugidos de casa,
Sem pátria e sem lar,
Éramos parecidos ao Mascote.
Gato velhote,
Zurzido a chicote.

Ele miava noite e dia,
Numa dolorosa agonia.
Chamava pela dona,
Clamava por companhia.

Nós chorávamos em silêncio,
Orávamos em segredo.
Até dos foguetes tínhamos medo.
Escondidos da curiosidade das vizinhas
Jantávamos côdeas,
E ele espinhas.

O Mascote velhote
Foi-se embora um dia.
Acho que se cansou de esperar,
Desistiu de acreditar.
Ficámos sem a sua companhia.

Quem se encontra órfão sofre melhor em conjunto.
Ele era órfão de dona,
Nós éramos párias do mundo.




P.S. O gato Mascote, na verdade chamava-se Pirilau, mas achei melhor mudar-lhe o nome para  algo mais harmonioso. E não se foi embora, morreu de saudades.

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