Mulher da rua



Mais uma entre tantas outras.
Movia-se com graça felina.
Oferecia sorrisos, e olhares.
Era uma estrela cadente,
numa cadência que não surpreendia.

Quem a visse pouco dava por ela,
Tão com todas se parecia.
No entanto era diferente,
Distante, ausente.

De saia curta e saltos muito altos,
Baton vermelho nos lábios,
Cheiro de perfume barato.

Porque não seria ela igual?
Vendia-se como todas, afinal...

Ela olhava e não via.
Acreditava numa fantasia,
Era anjo caído no lodo,
Mas a áurea ainda ardia.

-Tu, anda cá!
Nem respondia.
Se gostava, ia.
Fazia apenas o que queria.
- Julgas-te mais do que as outras?

Ela sabia.
Sabia como o mundo a via.
Mas no coração ainda ouvia
A voz da mãe que tivera um dia.

A voz dizia que ela era uma princesa,
De rara beleza.
Uma pérola presa
Numa concha de nostalgia.

Não era uma cadela como todos diziam.
Era a menina da sua mãe.
Podia estar quase nua,
Viver na rua,
Ser minha e ser tua,
Mas sabe-se lá o que o amanhã traria?…

Sonha menina reguila!
Sonha enquanto o cliente refila.
Nos teus sonhos não chafurdas,
nem és como todas as  putas.

Nos teus sonhos estás catita,
estás tão bonita!
Imagina que tens um vestido de chita.
Fecha os olhos, e... acredita.




P.S. Às vezes penso o que terá sido feito de todas as meninas de rua que conheci, e que batiam o Monsanto nos tempos em que São Domingos era uma mata selvagem, cheia de tarados e de perigos...

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