Natal, haverá sempre Natal



Naquele Natal não havia árvore de Natal.
E o sapatinho permanecia vazio.
Fazia frio,
e não tínhamos sol lá fora.

A mesa era solitária sentinela,
a cozinha não cheirava à costumeira canela.
Nem tínhamos luzinhas que piscassem,
ou figuras que alindassem a janela.

Estávamos longe de casa.
O Pai Natal não sabia o caminho.
Nem tal era de admirar,
pois não havíamos voado sobre o mar?...

Na cabeça do meu pai nasciam mais cabelos brancos,
os ossos parecia que lhe mirravam,
mingavam de tamanho.

Aquele Natal foi o principio desta vida.

Nunca mais o som do gelo no copo de whisky,
nunca mais o papel com cavalinhos verdes e vermelhos...

A humidade era nossa companheira,
e o bolor a nossa bandeira.

Vivíamos numa caverna,
que não era gruta,
nem ficava em Belém.
Era uma manjedoura pequena,
aonde mal cabia uma naufragada família moderna,
que não era sagrada nem profana.
Aonde nada voltou a ter nome definido,
e aonde até o Natal podia ser esquecido.

E depois disseram-me que não existia Pai Natal,
nem anões a colocarem laçarotes ou fitas.
E que não recebemos prendas
porque não tínhamos dinheiro nem para a mercearia.

Um poeta disse: “Porque contam estas coisas às criancinhas?”
Não bastava já a tristeza que havia?




P.S. Houve uma altura em que deixei de acreditar no Pai Natal, estou a aprender de novo, devagarinho.

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