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A mostrar mensagens de Novembro, 2017

No tears, no fears

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Não existe poesia na tristeza, assim como não existe beleza na solidão. Pois, claro, há muito quem seja contra! Há muito quem defenda a maravilha de um sentimento melancólico, ou a virtude da tão apregoada privacidade. A tristeza e a solidão são cancros, são como a ferrugem que corrói a melhor chaparia. Não são sentimentos poéticos, nem belos, são antes miseravelmente desgraçados.
O Duarte era um homem de quarenta e muitos anos que, à semelhança de tantos outros homens dessa idade, se sentia abandonado num mundo superlotado de ilustres desconhecidos. E não é que o Duarte vivesse sozinho, nada disso! Partilhava o mesmo vão de escadas com outros homens, alguns mais velhos, outros mais novos. Companhia física não lhe faltava, mas não possuía o menor laço afectivo com nenhuma criatura vivente. Da pobreza indigente da sua vida, ressaltava a saudade que trazia impressa na alma. Saudades de um tempo distante em que tinha tido um tecto, um lar, amigos e familiares, um nome honrado. Perdera t…

Serena Gabriela

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A Gabriela não fazia ideia de quando começara a perder o medo da morte. Quando era pequena, lembrava-se bem, passava noites inteiras semiacordada, lutando contra a angústia de imaginar que ela, ou alguém das suas relações, pudesse morrer de repente. Mas isso fora há muitos anos atrás. Agora, a Gabriela não tinha medo, e não sabia como vencera esse receio.
Suspeitava que tudo começara ao descobrir que a vida, ambicionada com todas as forças do seu coração, aquela vida de gente grande, cheia de dias imprevistos e vastas possibilidades, não era afinal o que tinha idealizado. Nessas alturas primeiras em que os sonhos se desmoronam mais rapidamente do que um pestanejar de olhos, nesses dias em que as desilusões massacram dentro do peito, a Gabriela dava por si a meditar na morte. Mas não da mesma maneira como o fazia em criança. De certa forma a certeza de que todas as suas desditas teriam um dia fim, a convicção sensata de que nada duraria para sempre, a constatação madura de que esta vida…

História de amor de Pedro e Laica

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Chamava-se Laica, e era obviamente uma cadela. Primeiro porque nenhuma mulher se chama Laica, e depois porque apenas as cadelas (e os cães, entenda-se) são capazes daquele amor sem limites e sem fundamento que caracteriza a essência dos melhores amigos do homem.
A Laica era uma rafeira de pelo curto e cor de raposa, pernas atarracadas, olhos meigos e uma cauda que não parava de abanar numa alegria insana por estar viva. Naquele dia o Pedro, mariola de maus hábitos e piores fígados, meteu em cabeça conquistar a Laica. Chamou-a, assobiou-lhe uma melodia de improviso, soltou estalinhos com os dedos, chegou mesmo a acenar-lhe com uma salsicha enlatada, e nada. A Laica, cadela de rua e vira-latas de grande experiência, desconfiada e precavida, mantinha-se a uma distância razoável do rapaz e assistia numa quietude mansa às suas demonstrações de falso afecto e carinho.
Mas o Pedro era arteiro e tantas fez, tanto se insinuou, que a cadelita abeirou-se dele. Hesitante ao princípio, esquiva e sem…

"Quem queimou a língua, nunca esquece de soprar a sopa."- provérbio alemão

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Todos aguardavam o Verão de São Martinho. Certamente ele viria, como era costume todos os anos desde que os homens tinham consciência desse dia em que se assam as castanhas, se prova o vinho e, diz o povo, se mata o porco. Pelos vistos apenas o porco não deve apreciar muito o folgazão São Martinho...
Bem, todos esperavam o anunciado Verão, menos a Doroteia. Ela sabia que costumes e tradições à parte, o tempo é apenas tempo que passa e pouco mais. Nem calendários, nem lendas populares alteram uma vírgula que seja aos intentos do universo. Podem desmanchar-se os homens em preces e desfazerem-se as velhas beatas em ladainhas, que se não for para fazer sol, ele não surgirá no horizonte por muito que no calendário se grite que é São Martinho. A Doroteia olhava os preparativos para o magusto com o mesmo descaso com que observava os cães vadios que passavam todos os dias por baixo da sua janela. Deixá-los, pensava. Não era supersticiosa, nem crente. Costumava dizer de si mesma que não era n…