História de amor de Pedro e Laica




Chamava-se Laica, e era obviamente uma cadela. Primeiro porque nenhuma mulher se chama Laica, e depois porque apenas as cadelas (e os cães, entenda-se) são capazes daquele amor sem limites e sem fundamento que caracteriza a essência dos melhores amigos do homem.

A Laica era uma rafeira de pelo curto e cor de raposa, pernas atarracadas, olhos meigos e uma cauda que não parava de abanar numa alegria insana por estar viva. Naquele dia o Pedro, mariola de maus hábitos e piores fígados, meteu em cabeça conquistar a Laica. Chamou-a, assobiou-lhe uma melodia de improviso, soltou estalinhos com os dedos, chegou mesmo a acenar-lhe com uma salsicha enlatada, e nada. A Laica, cadela de rua e vira-latas de grande experiência, desconfiada e precavida, mantinha-se a uma distância razoável do rapaz e assistia numa quietude mansa às suas demonstrações de falso afecto e carinho.

Mas o Pedro era arteiro e tantas fez, tanto se insinuou, que a cadelita abeirou-se dele. Hesitante ao princípio, esquiva e sempre preparada para largar a fugir, a Laica foi aprendendo a gostar daquele humano que aparentemente não tinha nojo das suas pulgas, nem se importava com a sua origem rafeira e desvirtuada, tão pouco valorizava a sua ausência de pedigree ou brasões de família, e não se mostrava ofendido com a sua falta de coleira, de donos, de maneiras.

Passou a viver num encantamento, a Laica. De manhã até à noite esperava a chegada do Pedro, que do alto da sua moto barulhenta, ou do cimo da bicicleta desengonçada que amava conduzir como se de um puro sangue se tratasse, lhe fazia uma carícia apressada e destituída de verdadeiro interesse.

Fazer o quê? Ele era assim. A novidade deixara de o ser, a conquista estava consumada e já o enfastiava ter a pequena cadela filada às pernas todo o santo dia. Naquela tarde, o rapazola vinha de mau humor da venda e do paleio com os amigos. A Laica, pobre dela, mal o viu assomar à esquina de todos os dias, lançou-se na costumeira corrida de encontro às suas pernas, na ânsia de receber um afago, ou uma palavra de bom acolhimento.

Porém, nesse dia, o Pedro estava de juízo virado e atirou um violento pontapé de encontro ao focinho da cadelinha.- Some-te perro maldito, que te vazo um olho!!
A Laica, aflita e apavorada, ganindo de dores no focinho, com o coração a estalar de tristeza, desandou de facto. No seu pequeno cérebro de cão não conseguia perceber o que de tão mau teria feito, que justificasse aquele tratamento cruel por parte da pessoa a quem mais amava nesta vida. O Pedro era para ela era mais do que um dono, era o próprio mundo, concentrado ali, naquela figura triste de rapaz de aldeia mal vestido e mal apessoado.

De noite, e já com o ânimo mais tranquilo, o Pedro sentiu a falta da Laica perto da cama dele. Era a cadelita a única criatura vivente que lhe desejava boa-noite, no meio de muitas lambidelas e ganidos de alegria. Era ela que lhe fazia companhia enquanto o sono não chegava, que escutava os seus monólogos solitários de homem solteiro. Sem a presença da Laica, a casa ficava muito mais triste e silenciosa. Sem o familiar raspar de suas unhas no soalho da sala, nem a sensação de segurança que ela proporcionava apenas por existir ali, o Pedro não conseguia adormecer.- Estafermo da cadela! Quem diria que se ia mesmo embora? É a paga por toda a comida que lhe dei, e pelo abrigo que lhe proporcionei este tempo todo! Soubera eu e nunca tinha chegado a perder tempo com ela!...

À medida que a noite avançava, o Pedro ia sentindo mais a falta da Laica, e no dia seguinte, mal o sol raiara, já se encontrava a pé e decidido a reconquistar o apreço da cadela.

Porém a Laica continuava de coração destroçado. Destituída da ardileza e das manhas dos humanos, não percebia a razão que levara o seu amado dono a maltratá-la de forma tão violenta, e mantinha-se indiferente aos apelos de concórdia que o rapaz lhe dirigia.

Houve quem dissesse que o amor de Pedro pela cadela era de facto verdadeiro, uma vez que o viram chorar desconsolado perto do local aonde a Laica o costumava vir buscar ao caminho… Houve quem afirmasse a pés juntos que se tratava apenas de orgulho ferido, e que em poucos dias o Pedro já teria esquecido a cadelita de rua que um dia fora sua.

Mas e a Laica? Ninguém imaginava a vontade que tinha de voltar às boas com o seu dono, de lhe sair ao encontro como dantes, num abandono sem maldade nem interesse. Mas tinha medo. Tudo tinha mudado. Se já não atendia aos chamados, se não respondia com latidos aos assobios do Pedro, não era porque tivesse deixado de gostar dele. Talvez num cantinho recôndito do seu coração canino, a Laica estivesse a aprender a gostar um pouco de si mesma, neste mundo ardente de desencontros e desilusões. Ou, estava apenas com receio de confiar de novo. Nada mais frágil do que os laços de confiança que, quando se quebram, dificilmente se voltam a soldar.


Seja como for, a partir daquela tarde em que o Pedro pontapeara a Laica, nunca mais os dois foram vistos juntos como antigamente. Quem prestasse atenção conseguiria ver a cadela meio escondida por detrás do muro desmanchado de qualquer quintal, quando o Pedro passava. Espreitava-o assim sem ele se dar conta, porque apesar de o temer agora, não deixara de o amar.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

"Vamos aquecer o sol"

Cheguei a Casa

Homenagem póstuma ao Amor