"Quem queimou a língua, nunca esquece de soprar a sopa."- provérbio alemão



Todos aguardavam o Verão de São Martinho. Certamente ele viria, como era costume todos os anos desde que os homens tinham consciência desse dia em que se assam as castanhas, se prova o vinho e, diz o povo, se mata o porco. Pelos vistos apenas o porco não deve apreciar muito o folgazão São Martinho...

Bem, todos esperavam o anunciado Verão, menos a Doroteia. Ela sabia que costumes e tradições à parte, o tempo é apenas tempo que passa e pouco mais. Nem calendários, nem lendas populares alteram uma vírgula que seja aos intentos do universo. Podem desmanchar-se os homens em preces e desfazerem-se as velhas beatas em ladainhas, que se não for para fazer sol, ele não surgirá no horizonte por muito que no calendário se grite que é São Martinho. A Doroteia olhava os preparativos para o magusto com o mesmo descaso com que observava os cães vadios que passavam todos os dias por baixo da sua janela. Deixá-los, pensava. Não era supersticiosa, nem crente. Costumava dizer de si mesma que não era nada de definido. Sobre ela tinham os anos rolado em passo de caracol, sem que uma só beliscadela lhe anuviasse o semblante de prima-dona. Deixá-los, deixá-los.

- Vem, Doroteia!- bradavam-lhe da cozinha.- Já estão as brasas altas, vão-se deitar as castanhas a assar!!
E toda a tarde era um corrupio de subidas e descidas nas velhas escadas de madeira que serviam a cozinha. Tabuleiros de febras primeiro, febras assadas e cheirosas, tabuleiros de castanhas depois, castanhas quentes e boas, a estalarem nas cascas crocantes, passavam frente à Doroteia que, num pasmo desconsolado tudo via, e por nada se interessava.
Que lhe importavam as comidas diferentes e os dias especiais? Para ela era sempre Inverno frio. Para ela nunca o dia começava de forma animadora, nunca as horas se lhe apresentavam de forma agradável e convidativa. Para quê querer saber? Deixá-los.

E o São Martinho passava. Vinha o Natal, a consoada com os seus preparativos mágicos e impregnados de uma nostalgia que ela não percebia. A passagem de ano... Festejar com que finalidade? O ano passa sozinho. Não existe necessidade de tanto frenesim.

As pessoas aceitavam-lhe a indiferença, e não se afligiam com as suas excentricidades. Familiares e amigos mais chegados já tinham como certo que com a Doroteia não se podia contar para nada que fosse festividade. Nem todos podemos ser iguais, diziam em sua defesa quando alguém a acusava de ser bicho do mato.

O mundo é assim, por vezes permite-nos ser quem somos, desde que, claro, não incomodemos ou importunemos ninguém com as nossas esquisitices. A Doroteia, pobre dela, não servia de estorvo a pessoa alguma. Limitava-se a ver a vida passar na segurança da sua zona privada. Não a estimavam, é certo. Mas também ninguém lhe queria mal. Era uma simpática nulidade, inofensiva e até bastante decorativa, segundo algumas opiniões masculinas.

Então porque estamos a perder tempo com a dita senhora?, quererão vocês saber. Pois bem, a verdade é que alguém descobriu que a Doroteia afinal festejava sim, mas sozinha e dentro de portas. Quando a cortina descia sobre a sua janela escancarada, a Doroteia assinalava as efemérides como qualquer outra pessoa. A diferença é que gostava de o fazer de forma privada e intimista. Vivia sozinha, fazia as suas festas sozinha… pois, faz sentido.

Engraçado foi que mal este segredo bem guardado deixou de o ser, a opinião pública passou a encarar a Doroteia de forma totalmente diferente. Já não era a pacata mulher que não gosta de novidades. Era agora uma criatura dissimulada, egocêntrica e manipuladora. Até aqueles que a conheciam há mais tempo faziam coro com as críticas generalizadas. Fingia, mentia, representava. Mostrava uma face, e afinal era outra bem diferente! Escândalo, infâmia! Fogueira com a bruxa! Ah, se estivéssemos nos tempos da Inquisição!...


Vá lá alguém perceber o mundo, não é verdade? Julgam-nos não pelo que de facto fazemos, mas pela forma como deixamos transparecer aquilo que somos. O mesmo acto pode ser louvado, ignorado ou amaldiçoado, dependendo da exposição que tiver. Que se dane isso! Às urtigas todos esses espartilhos mundanos! Viva a Doroteia que malgrado todas as intrigas festeja hoje o dia de São Martinho, apesar de ainda faltarem dois dias para tal acontecer de facto. Viva ela que faz as suas festas, e constrói o seu calendário! Hip, hip, hurra! E lá vamos nós comendo pelas beiras, soprando a sopa que está quente, num receio piegas de queimar as beiças…

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