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A mostrar mensagens de Dezembro, 2017

Quem tem medo de filmes de terror?

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As luzes apagam-se e as cabeças aquietam-se.
No grande ecrã surgem as letras e as alegorias:
"Antigamente eu fazia birra, e ele tinha paciência com os meus desatinos. Quando eu me magoava no betão de que o mundo é feito, ele cuidava de mim. Provava os meus cozinhados (mesmo os mais intragáveis), e dizia que gostava, que estava bom… Para ele, fui sempre a miúda fantástica de pernas bem feitas, e palavras em francês na ponta da língua… E gostava de mim, apesar de eu me ir tornando tão diferente de ontem.
Antigamente eu e ele éramos para sempre. Espreitávamos as árvores de Natal alheias, com esperança e triste solidão. Fazíamos planos (Deus! Como fizemos planos!!). E sonhávamos… Sonhos simples de pessoas simples. Sonhos que podiam ter dado certo, quem sabe?... Porque não deram certo? Era tão pouco o que pedíamos!…
Antigamente o meu espaço cabia todo no mundo dele. Contávamos tostões e palmilhávamos as ruas, porque as ruas eram nossas e nós podíamos. E não era só um bairro, era a cidade, a praia, flo…

Tantos são os gostos da vida

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Gosto de… Eu gosto de passear as pernas vestidas em meias brilhantes nas ruas cheias de gente. Gosto da sensação de frio que se sente quando o rabo escorrega devagarinho pela parede cheia de sangue, depois de um tiroteio. E gosto de me encolher em cima do sofá para afugentar o frio da noite. Também gosto de apanhar as migalhas que caem para o colo, uma a uma, depois de comer bolachas de água e sal. Gosto de quando me estendem uma mão com cheirinho bom, de alfazema lavada, com promessas de tudo, sem certezas de nada.
Gosto… Gosto do barulho da trovoada e da cor dos relâmpagos na tempestade, e da saudade que todo isso me traz de uma África distante. Ah, e gosto de gelado de chocolate comido em taças de alumínio sem brilho… E da casca bem tostada do frango frito ou do leitão assado. Gosto do medo que o escuro desvenda sempre que uma porta nova se abre. Também gosto do vento fresco nas tardes muito quentes (o vento sagrado do mar).
Gosto… De sentir como se houvesse electricidade nas veias, ou como se …

Pancadinhas de Moliére

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Todas as estradas acabam, têm de acabar. Está tudo bem, não faz mal nenhum.
Não, não é preciso chorar!
Quando viemos para cá, sabíamos que ia ser assim… Aceitámos. Lembram?
Claro que não lembram!... Mas também, como podiam?
Mal aprendemos alguma coisa, morremos…
Desce o pano sobre os aplausos silenciosos. A última rosa negra caiu no palco moribundo de nostalgia. Apagaram-se os holofotes cansados, tão cansados de iluminar.
Que querias? Diz! Estou aqui. Fala!
Não. Para quê? Nada digo. Perdi a fome da falar, Assim como esqueci o cheiro do oceano quando a tarde dorme. Da mesma forma que desaprendi as lantejoulas na brisa suave da praia.
Hoje sou menos do que nada, e esse nada é mais do que alguma vez fui.
Tudo tão inútil, tão escusado…
Qual o Deus louco que me fadou em melancolia?
Fecho os olhos, em fim de romaria. Não me prendam aqui!
Cabeceio. Tenho sono! Levantei-me de madrugada. Foi grande o meu dia.
Algures alguém ainda me abana, em vão alguém ainda me chama… Mas não os ouço. Nunca mais os hei-de ouvir.
Eu já não sou d…

A vida é uma colcha de retalhos

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Leonel chegou a casa com um sorriso de orelha a orelha. Tinha despachado a granda mula em alto estilo. Ah, se tinha! Quem julgava ela que era, afinal? Uma dama, não? Uma lady!... Devia de ser, devia!... Uma mula, isso sim! E das grandes, das piores. Daquelas que se acham senhoras!... Primeiro eram só sorrisos e maneiras sedutoras. Que sim, e que mais isto e aquilo. Acenos e gingares de ancas provocatórios. Mensagens e telefonemas insinuantes, com direito a fotografias e tudo. E depois, olha!... Depois a fazer-se de fina!... Não, porque não. Porque isto, e porque mais aquilo. Que acreditava no amor… Que julgava que era assim, e que ia ser assado… Pois, pois! Encostara-a logo à parede, e deixara bem claro ao que vinha. Sim, ou sopas. Se queria, queria. Se não, adeus, que há muito gado  na pastagem. E ela cedera. Claro que cedera! Pois se era mesmo isso que estava a pedir, com aquela voz de santinha carunchosa!... Ah! E ainda por cima chorara! Tivera o desplante de chorar baba e ranho, a…