A vida é uma colcha de retalhos



Leonel chegou a casa com um sorriso de orelha a orelha. Tinha despachado a granda mula em alto estilo. Ah, se tinha! Quem julgava ela que era, afinal? Uma dama, não? Uma lady!... Devia de ser, devia!... Uma mula, isso sim! E das grandes, das piores. Daquelas que se acham senhoras!... Primeiro eram só sorrisos e maneiras sedutoras. Que sim, e que mais isto e aquilo. Acenos e gingares de ancas provocatórios. Mensagens e telefonemas insinuantes, com direito a fotografias e tudo. E depois, olha!... Depois a fazer-se de fina!... Não, porque não. Porque isto, e porque mais aquilo. Que acreditava no amor… Que julgava que era assim, e que ia ser assado… Pois, pois! Encostara-a logo à parede, e deixara bem claro ao que vinha. Sim, ou sopas. Se queria, queria. Se não, adeus, que há muito gado  na pastagem. E ela cedera. Claro que cedera! Pois se era mesmo isso que estava a pedir, com aquela voz de santinha carunchosa!... Ah! E ainda por cima chorara! Tivera o desplante de chorar baba e ranho, a fingidona!... Sempre embirrara com mulheres que choram. Chorar é que não. Seca! Depois do trabalhinho feito, mandara-a vestir-se e pôr-se com dono, que ele, Leonel, estava com pressa. Mula!...

Regina chegou a casa com uma lágrima teimosa a escapar-se dos olhos verdes. Mais outro engano! Como se tinha equivocado! Deus! Será que alguma vez ia ter juízo na cabeça? Sempre aquela mania fácil de acreditar, de sonhar… Sempre a tendência para fantasiar, e para transformar sapos asquerosos em príncipes reluzentes… Quantos tinham sido já os erros? Nem sabia! Homens somavam-se atrás de homens. Relações fugazes, ou outras mais duradouras, que importava? Todos eles eram iguais. Cópias tiradas a papel químico uns dos outros. Mentirosos, hipócritas, dissimulados! Bestas com as calças nas mãos, e o cérebro embrulhado em pintelhos mal semeados. Este fora outro… Tanto que ela tinha sonhado com aquele dia! Tanto que se tinha arranjado, e perfumado para ir àquele encontro! Tantas palavras que havia ensaiado!... Certa de que este seria diferente, de que talvez fosse o seu grande amor por fim… Nada! Mais outro. Apenas mais outro desgraçado qualquer. E tinha-lhe chamado nomes, a ela que nada mais pedia do que um pouco de carinho e de afecto. Tinha-lhe dito que ela era porca, ordinária, mulher da vida… Não era nada disso! Não era! Era apenas uma mulher triste e sozinha que ainda sonhava. Mas estava disposta a deixar de sonhar! Estava no limite das suas forças.


Noutro lugar, Angélica acabara de atirar o computador de encontro à parede. Tinham sido semanas de preparativos para nada. Semanas e horas intermináveis de espectativa. Esperara primeiro com confiança, depois com paciência, e por fim já nem esperara sequer. De que lhe servia o tão apregoado talento para escrever se nem um miserável concurso de literatura para principiantes conseguia ganhar? Sim, para que lhe servia?! Desde os bancos da escola que lhe diziam que ela era um génio da escrita em potência, que se quisesse seria uma revelação, um fenómeno, que isto e aquilo! Tretas! Só conversas para embalar criancinhas. Génio nada, fenómeno nada! Farta! Estava tão farta! Espreitou o seu reflexo no espelho, e a imagem que viu pouco lhe dizia sobre o inferno que lavrava dentro de si. Composta como sempre, alinhada como convinha. Penteada, maquilhada. E mais logo viria o Fernando do trabalho, e pediria o jantar e o jornal. Sem querer saber sobre ela, sobre o que a afligia. E depois chegariam as crianças da escola e entre gritos e gargalhadas pediriam também elas o jantar. Sem repararem sequer nela. Porcaria de vida! Ninguém!... Que faria agora sem computador? Aonde encontrar o consolo e o amparo que as letras sempre lhe traziam? Mais só do que nunca, colocou o avental e foi preparar o jantar.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

"Vamos aquecer o sol"

Não sei valsar devagar

O homem desesperado