Quem tem medo de filmes de terror?


As luzes apagam-se e as cabeças aquietam-se.
No grande ecrã surgem as letras e as alegorias:

"Antigamente eu fazia birra, e ele tinha paciência com os meus desatinos.
Quando eu me magoava no betão de que o mundo é feito, ele cuidava de mim.
Provava os meus cozinhados (mesmo os mais intragáveis), e dizia que gostava, que estava bom…
Para ele, fui sempre a miúda fantástica de pernas bem feitas, e palavras em francês na ponta da língua…
E gostava de mim, apesar de eu me ir tornando tão diferente de ontem.

Antigamente eu e ele éramos para sempre.
Espreitávamos as árvores de Natal alheias, com esperança e triste solidão.
Fazíamos planos (Deus! Como fizemos planos!!).
E sonhávamos…
Sonhos simples de pessoas simples.
Sonhos que podiam ter dado certo, quem sabe?...
Porque não deram certo?
Era tão pouco o que pedíamos!…

Antigamente o meu espaço cabia todo no mundo dele.
Contávamos tostões e palmilhávamos as ruas, porque as ruas eram nossas e nós podíamos.
E não era só um bairro, era a cidade, a praia, florestas e pradarias.
Nada nos fazia medo, as respostas podiam ser mudadas, e os enganos corrigidos.
Éramos bonitos.

Puxaram-nos o tapete.
Ou puxámo-lo nós…
Perdemos a força para segurar o estendal sem o deixar voar ao vento…
Quando foi que nos largámos da mão?
Hoje somos fantasmas cinzentos sem corpo, perdidos no nevoeiro do nada ser.

E foram-se as raízes,
E foram-se as bases.
Ficámos num faz-de-conta que é a sério, mas é só uma flor de plástico.
Uma triste flor de plástico sem cheiro, e sem viço.

Procuro por ele, mas ele não está mais.
E quando está, é uma imagem que treme num lençol pálido  sem energia.
Estou tão, tão sozinha!…"

L9, L11…
Às segundas feiras é mais barato…
Então?!... É só um filme de terror!
Fechem os olhos e esperem.
Nada que se vê é a sério. Tudo vai passar.


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