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A mostrar mensagens de 2018

A árvore que nunca soube ser jangada

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Veio o vento e abanoupequena árvore para o lado direito. E depois veio a chuva colocar peso no lado esquerdo. O homem na impaciência de soltar o arado deu-lhe um toque mais para a frente. As chuvadas de Inverno amoleceram-lhe a terra por trás.
Caiu? Não. Forças contrárias anulam-se.
A árvore permaneceu de pé. Mas esqueceu a orientação que a Natureza lhe dera ao nascer. Desaprendeu o lado mais favorável do seu perfil. Deixou de querer escolher.
Quem a vê hoje não faz ideias da grande árvore que poderia ter vindo a ser. Não passa de um insignificante arbusto enfezado e quebradiço, mal sustido pelos ramos e raízes que o prendem à vida.
Nalguns dias a árvore queixa-se por não ter nascido numa estufa. Noutras ocasiões maldiz o jardineiro que tão mal a semeou, que tão adverso lugar escolheu para a trazer em flor.
Nem o sol, nem os passarinhos do campo, nem as papoilas lhe alegram os dias. Pensa em tudo aquilo a que estava destinada.
Esquece que enquanto se lamenta as silvas e as urtigas abrem pasto no seu c…

E de como cabanas e asnos são melhores escolhas do que palacetes e cavalos

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Comecei a reparar nas casas mais pequenas. É sempre numa delas que costumo morar. Os detalhes são o meu pano de fundo.
- Tens a certeza que é nesta rua?- pergunto de olhos esbugalhados perante tanto casario imponente - Claro! Olha lá, é aquela. E é a mais desapercebida, escondida e dissonante casa de toda a rua… Ao principio incomodava-me. Sentia-me quase injustiçada. Que diabos! Porque é que tem de ser sempre a mais pobrezinha de todas? Mas agora não. Lido perfeitamente com a situação. Encontro-lhe até um certo encanto peculiar.
- A minha há-de ser aquela ali. - Porque dizes isso? - Porque é a que destoa do conjunto. É aquela aonde à partida ninguém preferiria morar. É a minha. - E não é que é mesmo?? - Eu sabia. :)
Talvez aconteça o mesmo com as outras pessoas... Porque não? É possível que a nossa casa não seja a nossa primeira escolha. Vem-me à ideia a minha mãe que costumava dizer que nunca casamos com a pessoa de quem mais gostamos. Sabedoria antiga.
"Não escolhemos aquilo que temos.&…

A jangada da Medusa

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Salva-vidas há muito lançados no mar deixaram de ser visíveis. Superiores, colegas e demais passageiros estavam dispersos no largo oceano. Na jangada eram muitos os que lutavam pela vida. Relatos posteriores afirmaram que havia uma mulher entre eles... Bem, se havia não se fez notar.
A jangada carregava 150 almas, e ameaçava afundar a cada minuto que passava.
Os melhores lugares eram disputados em lutas terríveis de sangue e morte. Apenas os mais fortes (e os oficiais) logravam uma posição no centro da improvisada embarcação. Os outros, fracos e anónimos, seguiam pendurados nas bordas ou iam ficando pelo caminho como desperdícios lançados fora.
Os desacatos entre eles eram de tal forma que as poucas provisões caíram no mar e perderam-se irremediavelmente. Não tardou muito até que os feridos se amontoassem na jangada. Por toda a parte se ouviam gemidos e lamentos agonizantes.
Os moribundos e os desesperados formavam uma só voz no coro de tamanha desgraça. Mesmo antes de falecerem, já os co…

Um cavalo sem nome

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A beiça entreaberta revelava-lhe os dentes ameaçadores. O focinho encrespado lembrava pergaminho seco. Os olhos vermelhos chispavam, sombreados por uma crina rebelde que ninguém conseguira entrançar. Os flancos acusavam antigas violências, falavam de suplícios e ferros espetados em carne fresca.
No lombo ostentava vergões profundos e cicatrizes de outros tempos. Os cascos gretados tinham há muito perdido as ferraduras, expulsado os cravos cor de ferrugem. Orgulhoso o rabo agitava-se desgrenhado ao vento.
Tinham tentado domá-lo, montá-lo. Quiseram ensinar-lhe os passos estudados dos cavalos amestrados. Alguém havia planeado o futuro que ele iria ter. Deitaram-lhe um laço apertado que o fez estrebuchar. Arrastaram-no para as cavalariças, fizeram uma cama de palha e disseram que ali iria dormir.
Os homens punham-se nele e tentavam equilibrar os corpos débeis nas pequenas selas ridículas de couro e cabedal. Ele resfolegava e atirava-os ao chão. Um a um, os humanos fracos caíam. Batiam-lhe. Cra…

Cheirinho a canela

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Foram muitas lágrimas, muito sal e muito fel. Alguns dias não tiveram sol. Muitas vezes caiu neve no Verão. Alturas houve em que a insensatez reinou, e até o tempo rolou fora de ritmo. E existiu desamparo, ranger de dentes e arder de chagas abertas em ferida.
Sim, houve tudo isso. Houve até mais do que isso.
Eram gigantes que esmagavam castelos de trazer por casa. E fadas que perdiam o condão. Anjos que se transformavam em dragões. Florestas que vistas de perto não passavam de capim ressequido. E cacimba mal lambida com línguas ásperas de sede e cansaço. E pó. E lama.
Sim, foi assim. Pois foi.
E o ar quente do deserto queimou o oásis da esperança que não chegou a acontecer. A desgraça fez-se presença e esmagou as crenças antigas. Nasceram tristes as crianças. Mulheres abriram as veias na praia aproveitando a maré que vinha. E homens penduraram-se pelo pescoço em cordas cor de ferrugem e sangue.
Não esqueci nada. Não deitei fora esse testamento que herdei em vida.
Mas houve vagar e leituras ao serão. E fritin…

Um homem uivava, triste chorava

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No negrume da noite, o monge uivava. Na fúria da tempestade “-Perdoa, porque peco!”, berrava.
Os cabelos colados ao crânio macerado. Os arremedos de roupas eram andrajos. As sandálias desaparecidas na rudeza dos penhascos.
Os pés gretados de sangue com sujidade do monte. As pobres mãos erguendo-se esqueléticas, Pondo-se uma na outra patéticas, numa prece tremida.
Todo ele escorria vento e trovoada.
As pernas fraquejavam… Os relâmpagos rasgavam o horizonte, A lama revelava as entranhas do campo. Desventrada, a montanha despia-se de tripas e intestinos. A natureza sangrava numa hemorragia interna.
Chorava, o pobre monge. O firmamento insensível assistia. Podia acabar o mundo  que ninguém via nada. Um homem que morre é menos um homem que vive.
Pedia… Gritava… - Perdoa, porque peco! Punhos batiam no peito ossudo como tambores selvagens. Os joelhos rasgavam pele e músculo, de rojos na terra.
Pobre, Miserável neto de Eva caído em desgraça… Ergue-te monge negro, escorpião do deserto! Certamente que estás perdoado! Que…

Um sorriso de Charlot

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Tu que me olhas sorrindo,                                                           Qual é a paranóia?                                                              Aonde o inferno em que vives?
À medida que conheço a loucura dos outros, e a minha, Vou ficando mais sozinha. O mundo vai sendo pequenino.
Tenho saudades de quando não sabia… Se alguém me sorria era bom! Era sim!
Agora cada olhar é um desaire. Estranhos que choram por dentro, Ou fingem ter sol no coração… Tristes sapos é o que são.
Insistem em ver neles seres bonitos? Pois eu não.
Tolos a quererem comer e guardar os bolos… Julgam-se senhores de boa voz Mas são apenas sofredores Em busca da teta perdida… Lordes em fralda de camisa…
Fariam rir se não fizessem chorar!... Como a maioria de nós.



Eu volto para te buscar

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- Fica aqui. Espera que um dia volto para te buscar. Confia.- e afastou-se devagarinho. A menina ficou. Era obediente. Tinham-lhe ensinado a ser boazinha. Por isso esperou. Engoliu as lágrimas entre soluços. Olhava o caminho à espera que a espera terminasse. - Eu volto.
Mas passaram muitos dias depois desse tal dia. E passaram anos, e depois ainda mais outros anos. Crente de que a menina se encontrava à espera, ela continuava a vida. Mortificava-a saber que dificilmente seria capaz de voltar. O destino trouxera-a para bem longe de casa. Cruzara um largo oceano e perdera-se do pátio da escola africana.
Via em sonhos, que mais pareciam pesadelos, o exacto local aonde deixara a criança. Imaginava-a sentada, quieta, sossegadinha, de esperança acesa no passar inútil do tempo. O que teria sido feito da menina?- atormentava-se e sentia-se culpada.
De noite parecia-lhe amiudadas vezes ouvir um choro infantil, um pedido murmurado:- Vem! Vem-me buscar! Podia lá!... Além disso prometera que voltaria mais …

O homem desesperado

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Queres que tudo pare? Tens vontade que o tempo mude? Apetece-te fechar os olhos e estar num outro lugar? Acontece-te pensar que não suportas mais?
Para ti o mundo está todo esquisito?… Conheces a sensação de que nada parece real? Tens a impressão de estares a alucinar?…
Sentes-te por vezes tão, mas tão triste como se fosses rebentar? Ouves palavras sussurradas no barulho que se cala? E distingues gritos de dor quando a noite chega, ou quando a chuva cai? Choras? Choras de madrugada?
Tens alguma esperança? Nem que seja uma simples esperança, esperança infundada, esperança de criança?
Acreditas? Acreditas ainda que te digam que deliras? Acreditas num qualquer faz-de-conta que sim?
Estás habituado? És um conformado? Julgas que não há mais além disto? Aceitas os dias sempre da mesma maneira? Foste idoso a tua vida inteira?
Se estás fora da festa, e nenhum consolo te resta, e ardes no inferno…
Se não tens nem um só amigo, E perdeste aos dados o chão deixado pelos antigos, o chão que supostamente era eterno…

Um melro que não queria fugir

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Tantas vezes penso, E dou por mim a imaginar como seria eu, Se não fosse assim?
Se não me tivessem moldado, forçado, espartilhado, Se não tivesse tido mordaças na boca, Quem estaria destinada a ser?
Porventura alegre, nervosa? Comunicativa, tímida, generosa? O que há dentro de mim?
Vem-me a esperança de que podia ter sido melhor, bem melhor…
E convenço-me de que um dia venho a ser de facto eu. Quebro as amarras e vergo as grades, Desço da torre malvada pendurada numa trança.
E nessas alturas de triunfo e revolta Dou-me conta que sou o que de mim fizeram, E que não haveria eu sem ser assim.
Ou seria uma folha em branco, Um livro sem páginas escritas. Uma louca ou uma insana.
Vejo que sou, Apenas sou. E que me invento com a linguagem que aprendi a usar. Papagaia sem fala, Perdida, Largada ao vento.
Tantas vezes penso!... Mas penso dentro da cela que não vou abrir, Então como me atrevo a resistir?
Com que direito digo que tenho alguém em mim?

Complexo de mim

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Ermelinda sente a cabeça a latejar. Encosta a fronte à vidraça fria e deixa-se ficar quietinha, a ver o mundo rolar. Por muito que não quisesse, só consegue pensar “Que grande perda de tempo! Que grande perda de recursos!”
Passavam-lhe na ideia os anos em que o pai trabalhara em prole da família, também em prole dela portanto. A quantidade de vezes em que a mãe se privara do seu justo quinhão de comida para que ela pudesse medrar, vingar. As leituras, o dinheiro gasto em mil e um livros de auto-ajuda, em revistas e periódicos. Pesquisas… tantas que fizera! Planos… tantos que fizera!... “Perda. Perda de tempo.” Tudo se resumia àquela verdade crua e imutável, independente de considerações e de opiniões: era maluca. Maluca, e pronto.
Porque em muito pequena não fora capaz de fazer as ligações precisas entre neurónios não conseguia agora assimilar correctamente as mensagens dos transmissores. Interiorizara valores fictícios e dera-lhes importância de verdades. Perdera-se na imaginação e não …

Posso ir contigo?...

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Leva-me contigo. Vamos aonde tudo é possível e o algodão doce é mesmo feito de açúcar, e os caramelos ainda pegam nos dentes, e as rosas continuam a ter espinhos mas são bonitas de morrer. Dá-me a mão, e leva-me. Leva-me contigo…
Pouco importa se não levamos mapa nem sabemos de geografia, nem se a terra é mais redonda nuns dias do que noutros. E mesmo que faça frio, tanto frio, e mesmo que faça sol e haja calor, e até se o céu estiver riscado de relâmpagos e trovões, leva-me ainda assim.
Enquanto o coração bate e as pernas respondem, e os olhos sonham e a alma vibra. Enquanto temos sangue e temos força. Antes de ser tarde para mais nada. Antes que seja tarde demais.
Lá fora ainda é claro, mas debaixo das árvores a noite vem mais cedo. As florestas são cheias de sombras e de recantos escuros. E vultos escondidos espreitam atrás das árvores. Leva-me… Perdemos os sapatos e estamos descalços porque fugimos há tempo demais. E as nossas roupas são farrapos com sombras do que foram um dia. Os cabelos…