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A mostrar mensagens de 2018

Vou mudar de vida

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Vem atrás de mim se conseguires. Apanha-me se puderes. Porque eu vou saltar do monte mais alto do mundo. Porque eu vou fugir para o mais longe possível. E só chegarás até mim se fores capaz de me acompanhar. Podes perguntar-te o porquê de tanta fuga… Ou o porquê de me tentar alcançar... Podes, podes perguntar. E também podes não fazer nada e apenas deixar-me ir. Ficares só a olhar enquanto ganho altura e vou ficando um pontinho cada vez mais distante. Não tens que me seguir. Nada que vale realmente a pena é para ser imposto. E não posso pedir-te que venhas comigo se a tua vontade for ficar. Se o teu apetite pelo chão for maior do que a tua ânsia de voar… Nem vou fazer cara feia se me disseres tranquilamente que ganhaste raízes fundas nesta terra de onde eu quero partir. Vou perceber. Sei que és humano, apenas humano. Sei que os teus anseios e as tuas vontades podem ser do tamanho do peito franzino que alberga o teu coração. E estou a par da importância que dás as aparências... Sei de pe…

Homenagem póstuma ao Amor

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Uma singela flor, em memória a quando eu acreditava no Amor. Um agradecimento a quem me fez sorrir e dançar, e cantar…
Valeu cada momento de felicidade!
Nenhuma lágrima apagou a alegria de uma realidade que só vivia na minha ilusão. Houve um tempo para lá deste tempo, em que supus haver mais do que apenas viver. Nessa altura descobria razões que ninguém via, e imaginava venturas nas invenções que me diziam.
Fui ingénua numa idade em que a ingenuidade dá vontade de rir… Era crédula como uma criança, e como uma delas fácil de encantar.
Hoje trago comigo uma flor, uma singela flor para depositar aos pés do Amor, Em homenagem àquele tempo ido. Como uma carícia em mim mesma e um desculpo tudo, não há que perdoar.
Porém estranho que feridas supostamente fechadas ainda consigam arder... Espanta-me que as cicatrizes  saradas pulsem após toda esta eternidade!...
Não, eu já não presto vassalagem ao Amor! Sei que histórias são folhetins, e novelas não passam de romances de cordel. Mas bastou uma palavra com sa…

Sabendo como sou...

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Sabendo como sou, era impossível não ser como sou agora. Marília examinou seriamente o rosto impávido do outro lado do espelho. Quantas e quantas vezes não se mirara assim, em tempos idos!... Nessas alturas perguntava-se como seria dali a dez, vinte anos? Sorriria da mesma maneira? O cabelo? Curto? Mais comprido? E o rosto? Encrespado, ou antes pelo contrário um mar de calmarias?
Os anos tinham passado sobre a imagem no vidro. À sua frente estava uma mulher enigmática. Os olhos escuros e a pele trigueira eram sem dúvida os mesmos. Nos lábios não tinha baton, nem pintura na face. Longos cabelos acastanhados adornavam o pescoço bronzeado. Não, não estava muito diferente… No entanto não parecia a sua própria pessoa. Porque não dizia nada? Porque apenas olhava circunspectamente parecendo não se reconhecer?
Quebrara promessas e abandonara-se em muitas esquinas de bairros diferentes. Esquecera juras e recatos, e trocara de valores e de moral. Ofendera deuses e anjos, abrira o seu caminho desbr…

De mulher a menina

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Os olhos da Florinda assemelhavam-se a lagos de profundas águas verdes. Do verde quieto dessas águas brotavam chispas como fogo ardente.
Era uma mulher quase menina, ao contrário das meninas que estão prestes a serem mulheres. A Florinda decrescia em criancices ,como se lhe batesse no peito um relógio que só anda para trás. Taque-tique, taque-tique...
Cabelos brancos tinha-os aos molhos. Rugas abriam caminho nas faces quase descarnadas. Estava velha. Mas via-se de novo menina no pensar.
Já há um tempo que lhe dava para recordar a mãe. E a mãe aparecia flutuando de braço dado com o pai, os irmãos. Colo,pedia a Florinda. Colo e família, colo e aconchego. Ainda não, escusava-se a mãe e a restante trupe alada.
Tinha de diminuir de tamanho para caber de novo nos braços maternos. Tinha de trocar a roupa escura pelo bibe de renda, se queria fazer sorrir o pai. Os braços enrugados prendiam-se num enrolar de ossos estaladiços e rendilhados. As mãos trémulas mal davam com a casa dos botões. Ná... …

Não peças "Volta para mim"

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Não peças “Volta para mim”… O que em ti há são paredes sólidas aonde me amparo e protejo. O que em ti há é a tranquilidade de um lago ao luar.
Por isso não  peças “Volta para mim”…
Hoje sou como um rio cansado de tanto navegar. Procuro as margaridas desbotadas do nosso tempo de meninos. Quero o doce tiquetaque da quieta monotonia de cada dia que chega ao fim. Preciso a certeza de cada lugar, de cada prateleira ou gaveta. É isso que busco.
Não peças “Volta para mim”. Diz que está tudo bem. Faz de conta que temos amanhã e depois ainda, E que os anos não foram cruéis para nós. Quando eu chorar perdoa a minha tristeza. Quando eu vacilar sê a força na minha fraqueza.
Não  peças “Volta para mim”. Abre a cama e estica os cobertores. Cuida das minhas feridas, cuida das minhas dores. Voltar para ti apenas é tão miseravelmente pouco!... Tão pouco quando comparado ao mundo inteiro que és para mim.


Caixa de Pandora, pain is all you find

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Passei por um jardim aonde estava um velho, aonde estava um menino. Gostei. Fiquei mais um bocadinho. O jardim afinal era mato. O velho um tarado, e o menino um pedinte disfarçado. Foi-se a beleza, foi-se a poesia.
Não fora eu ter parado… Guardava comigo o brilho do jardim, com um velho, com um menino. Se não tivesse espreitado por debaixo do véu… Podia ter conservado a magia das primeiras impressões. O sabor inocente de quando tudo é novidade e bonito. E levava no peito um fim de tarde tranquilo com pombos e pardais,  avozinhos e netinhos… Com sei lá que mais… O mal está em desvendar aquilo de que gostamos.

Cheguei a Casa

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Quando sinto o cheiro familiar do pó sei que cheguei a casa. Às vezes engano-me, confesso que sim. E deixo-me tentar pela ilusão das aparências, é certo. Mea culpa. Minha tão grande culpa…
Às vezes sigo embalada no deslizar do rio que finge calmarias. E dou por mim a apreciar a falta de vagas, A inventar uma costa à vista. Ridículo, não é?! Assim sou eu…. Os anos passaram e esculpiram em mim escarpas e deixaram danos. Mas continuo como antes… Crente. Quase inocente.
Em quantas ocasiões a minha mão estendida se retrai na certeza do nada que está por vir! E com que frequência o meu coração retalhado bate mais forte ao compasso de algumas danças… Pobre, Pobre de mim!
As estradas surgem cobertas de silvas e espinhos. Os meus pés esfolam-se na aridez do caminho. Falta-me o tino que orienta os caminhantes nas pradarias. Tudo se assemelha perante os meus olhos vermelhos de chorar. Apetece parar. Desistir de tanto buscar….
E aí sinto o cheiro familiar do pó e sei que cheguei a casa. Pó e um não sei quê de bafio, Pó e …

"A alma que é livre vai. O corpo que é escravo fica."

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O chicote estala. O homem grita. Corre espessa golfada de sangue. Sangue escuro de flagelado.
No final o sofrimento cessa. Cessa. No final o sofrimento passa. Passa.
Não mais ais. Nem rios escarlates correndo escandalosos a céu aberto.
O mundo ausenta-se do pobre moribundo. Julgam-no morto. A chibata aquieta-se… Bater para quê?
Mas o pulso estremece e o desgraçado suspira. O corpo é sábio. A dor liga e desliga. Os homens não têm piedade nem sentimentos, mas a natureza cuida das suas crias.
Quem nos limpa a transpiração? Quem nos lambe as feridas?
Vinagre e sal numa esponja embebida…
O chicote vem de novo a beijar a pele. Os vergões antigos são tições negros que ardem devagar.
Quantas vergastadas mais antes de alguém se render?
O corpo geme e estrebucha. Agoniza a pobre carne pecadora. Uma só palavra e será salvo o condenado…
Piedade, Piedade, meu Senhor!

A não ser escrever...

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Não sei que mais possa fazer, a não ser escrever. Quando estou triste assim, não sei que mais possa fazer. Chorar é pouco, e as lágrimas sabem a mágoa acrescida. Murmurar e balbuciar palavras indistintas não ajuda em nada. É tristeza pura. Tristeza na sua essência. Só tristeza.
Não sei que mais possa fazer, a não ser escrever. E escrever é pouco também, e as letras não abraçam, nem consolam. Quanta mágoa cabe dentro do peito? Quanta pena se suporta? Tanto tempo, tantos dias, tantos anos! Dores vindas de séculos, dores trazidas do outro lado do mundo. Crónicas de família, álbuns de sal e fel.
Quem me dera, ah quem me dera! Se eu pudera!... Voltar a menina outra vez… Não a que brinca com bonecas e carrinhos, mas aquela ainda por ser. Enrolar o cordão em redor do pescoço franzino, Apertar devagarinho e não querer nascer.
Não sei que mais possa fazer, a não ser escrever. Estou muito triste. Como é possível que olhem para mim sem perceber? E riem-me, e sorriem-me, e gabam-me o bom parecer…
Vejam-me bem! Sou fantas…

Pequenas Liberdades

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Todas as nossas pequenas liberdades eram preciosas… Porque eram liberdades poder correr de vez em quando. Porque eram liberdades conseguir dar a volta ao pátio lá fora. E que bem que sabia brincar às escondidas no restaurante enquanto eles almoçavam!...
Livres do espartilho dos olhares, Livres do apertado das censuras e dos esgares disfarçados…
Melhor do que passear era  sermos quase parecidas aos demais meninos da rua. Mais do que os cozinhados inusitados eram deliciosos os segredos de cada riso, de cada tropelia!... Para depois ficavam os comentários azedos que a nossa conduta sempre merecia. Para mais tarde ficavam as recriminações e os abanares zangados da cabeça. Valia bem a pena! Ah, se valia! Como valia!
Ninguém sabia que esses eram os nossos momentos dourados...
Hoje já muito longe dessas vitórias de menina, Do alto dos meus cinquenta e mais um anos Continuo a saborear as pequenas liberdades da vida.
Liberdades que ainda são preciosas. Instantes em que os narizes torcidos do mundo me deixam em …

Maria Rosalinda (Rosalinda da vida)

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Rosalinda enxugou a lágrima que escorria entornada pelo canto do olho. Sabia que estava certa quando não acreditava, Mas algo dentro dela teimava em não entender. Contrariando todas as evidências, a Rosalinda ainda queria dar uma chance.
Via ela, todos viam, que um mais um são dois. Sabia ela, como todos sabiam, que de má amostra não se faz boa obra. Mas…queria tanto poder estar enganada! E se?...
Rafael não tinha sentimentos. Era oco, vazio por dentro. A personalidade não se chegara a estabelecer naquele espírito vagabundo. Quem pensava que o conhecia via apenas o que ele queria mostrar de si mesmo. E o que ele queria mostrar não era uma verdadeira mostra, porque de seu nada havia.
Maneirismos, trejeitos, formas de sorrir ou entoação ao falar, Tudo eram mistificações aprendidas com quem o rodeava. Amealhava emoções alheias, decorava falas como deixas que guardava consigo até ser oportuno empregá-las. Até as injúrias, os insultos eram decalcados de outras brigas que não as suas.
Como um balão mal chei…

Quem sabe põe o dedo no ar!

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Pedro, diz-me o que é Tirania! E o rapazinho pensativo olhou para o chão. Que foi? Perdeste a língua? Vá! Responde! As palavras pareciam queimar na garganta… O rubor invadia as faces imberbes… O que é Tirania?
Outros olhos ansiosos cravavam-se nele. Tanta valentia! Tanto atrevimento! E então? Agora era o lugar de líder revoltoso que estava em causa.
Devo concluir que não sabes? Ou será que tens medo de responder? Já alguns sorrisos de troça pesavam no ambiente. A transpiração traiçoeira pingava na testa, no pescoço.
Sei, sim senhor professor! Ufa! Uma onda de alegria vibrou na sala. Sabes?
Primeiro respondeu o José, depois o António, e a Raquel, e a Rita. Depois já todos gritavam a sua própria resposta: Tirania é quando nos obrigam a ser o que não somos. Tirania é quando não nos dão opção de responder. É quando o pai da gente chega bêbado da rua. É quando a mãe da gente se acaba nas esquinas para pôr comer na mesa. E é quando um adulto todo poderoso nos faz tremer porque somos pequenos. E é quando escreveram o…