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A mostrar mensagens de 2018

Maria Rosalinda (Rosalinda da vida)

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Rosalinda enxugou a lágrima que escorria entornada pelo canto do olho. Sabia que estava certa quando não acreditava, Mas algo dentro dela teimava em não entender. Contrariando todas as evidências, a Rosalinda ainda queria dar uma chance.
Via ela, todos viam, que um mais um são dois. Sabia ela, como todos sabiam, que de má amostra não se faz boa obra. Mas…queria tanto poder estar enganada! E se?...
Rafael não tinha sentimentos. Era oco, vazio por dentro. A personalidade não se chegara a estabelecer naquele espírito vagabundo. Quem pensava que o conhecia via apenas o que ele queria mostrar de si mesmo. E o que ele queria mostrar não era uma verdadeira mostra, porque de seu nada havia.
Maneirismos, trejeitos, formas de sorrir ou entoação ao falar, Tudo eram mistificações aprendidas com quem o rodeava. Amealhava emoções alheias, decorava falas como deixas que guardava consigo até ser oportuno empregá-las. Até as injúrias, os insultos eram decalcados de outras brigas que não as suas.
Como um balão mal chei…

Quem sabe põe o dedo no ar!

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Pedro, diz-me o que é Tirania! E o rapazinho pensativo olhou para o chão. Que foi? Perdeste a língua? Vá! Responde! As palavras pareciam queimar na garganta… O rubor invadia as faces imberbes… O que é Tirania?
Outros olhos ansiosos cravavam-se nele. Tanta valentia! Tanto atrevimento! E então? Agora era o lugar de líder revoltoso que estava em causa.
Devo concluir que não sabes? Ou será que tens medo de responder? Já alguns sorrisos de troça pesavam no ambiente. A transpiração traiçoeira pingava na testa, no pescoço.
Sei, sim senhor professor! Ufa! Uma onda de alegria vibrou na sala. Sabes?
Primeiro respondeu o José, depois o António, e a Raquel, e a Rita. Depois já todos gritavam a sua própria resposta: Tirania é quando nos obrigam a ser o que não somos. Tirania é quando não nos dão opção de responder. É quando o pai da gente chega bêbado da rua. É quando a mãe da gente se acaba nas esquinas para pôr comer na mesa. E é quando um adulto todo poderoso nos faz tremer porque somos pequenos. E é quando escreveram o…

Quando as folhas caem na Primavera

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Este poema é dedicado às folhas que caem, quando todas as outras estão a nascer. Este poema é para as árvores que estão no Outono, quando o calendário diz que é Primavera.
Meses, semanas e dias… Estações e anos… Tudo invenção dos humanos.
Ao principio era o nada. Nem nomes, nem significados.
Depois vieram os Homens e disseram que isto se chama assim, E aquilo se chama assado. Escreveram frases, Encheram livros. Fizeram de todas as coisas do mundo um tratado.
Época de nascer, Época de desabrochar. Época de recomeçar.
Pois eu louvo as folhas que caem, quando todos esperam que elas nasçam. Louvo as árvores que não respeitam a altura de florescer, E louvo todos aqueles que de pé, escolhem quando hão-de morrer.
No tempo em que as flores anunciam os frutos, Quando as abelhas sorvem o néctar das rosadas pétalas E os pardais escarafuncham as carnudas polpas, Existem folhas que caem, Existem árvores que findam.
Existem Invernos que não chegaram a ser Verão. Apenas não.
Este poema é para os marginais da natureza, Párias…

Somos Família

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As pessoas lá fora não se importam. Porque haveriam? A verdade é que ninguém quer saber de ninguém.
Só dão uma coisa a quem dá outra de volta. Dizem que sentimentos são troca de mercadorias. Fingem que riem. Mentem e nem sentem. São surdos, mas não mudos. Falam muito, mas falam sozinhos.
Não somos assim.
Não fazemos justiça. Para isso o mundo está na rua. Não aplicamos regras, nem impomos castigos. Nem somos juízes, ou nobres causídicos.
Somos nós. Só nós. É isso que somos.
Juntos quando tudo falta e desaba à nossa volta.
Somos gente nossa.
E nunca ninguém gostará tanto de cada um de nós, Quanto gostamos uns dos outros.

Bring me a dream...

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Querido Pai Natal, Apesar de já não ser natal, Ou de ainda não ser Natal, Traz-me um sonho. Quero uma sala cheia de prendas embrulhadas a laçarotes e fitinhas. Bonecas, tambores, histórias de reis e rainhas. E jogos de cubos, serviços de chá para brincar às casinhas. Uma mesa com toalha bordada e azevinho com rubras bolinhas. Lá ao fundo a antiga árvore enorme carregada de luzinhas.
Querido Pai Natal, apesar de já não ser Natal, Ou de ainda não ser Natal, Traz-me um sonho. Cheirinho a fritos com canela, aletria, fatias e broinhas. Pires e travessas de guloseimas e salgados caprichados. A melhor loiça lá de casa com os talheres que nunca serviam. Refrescos gelados em cristais preciosos. Até as cadeiras, meu Deus, até as cadeiras reluziam! Cera e óleo de cedro reluzentes em todas as mobílias.
Querido Pai Natal, apesar de já não ser Natal, Ou de ainda não ser Natal, Traz-me um sonho. Faz com que tudo seja bonito de novo. Arranja um milagre, uma magia. Traz de volta a inocência e a candura. Leva de retro a trist…

Para onde vão as mães quando fogem?

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A Amélia chorava baixinho. Baixinho acreditava que a mãe voltava. Baixinho acreditava que a mãe vinha. E a mãe não vinha…
tic- tac, tic- tac...
Coitadinha da Amélia, da Amélia pequenina.
A saia de xadrez nas costas da cadeira... Os óculos na mesinha de cabeceira.... As sandálias ligeiramente deformadas nos joanetes...
As coisas vazias de miolo. As coisas vazias da mãe que a deixara sozinha.
tic- tac, tic- tac...
Ainda de manhã ela estivera ali. Passara a ferro o vestido vermelho com arabescos brancos. Até lhe ensinara um truque para quando a roupa não enxugasse na corda… Bastava embrulhá-la numa tolha e torcer… Para um dia quando fores crescida
Já saberia que ia embora? Resolvera na hora?
tic- tac, tic- tac...
-A mãe? -Escondida. -No capim?- os olhitos escuros a perfurarem a altura enorme do capim na noite africana. -Quem sabe? É maluca. -Maluca, a mãe?- não, não era! Era a mamã.
Talvez se usasse as palavras de criança, ela voltasse… Sempre tinham tido uma linguagem só delas,

Meu Moçambique

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De longe chegam os brados de um tempo que mal vivi. De longe chegam os ecos de uma história que quase foi minha.
Parece que escuto os serões entre violas e batuques… Parece que vejo o fumo dos cigarros subindo devagar nos ares…
E são muitas as cabeças dos homens em torno da mesa, e muitos os copos de cerveja gelada. Discutem, conspiram, conversam e riem. Dizem poesia e sabem sobre livros censurados. Dançam os ritmos antigos. Esconjuram espíritos amaldiçoados.
Falam de um país meu, mas que se perdeu para mim.
Gravatas e fatos, balalaicas e mangas de camisa arregaçadas. Alguns chapéus moles e desabados atirados pelos cantos dos sofás. Rostos claros, escuros de carvão ou castanhos como canela, outros não tão definidos assim. Velhos e moços. Doutores, homens de letras, escriturários, comerciantes, poetas. Tocadores de mil instrumentos sem fim.
Que homens aqueles? Amigos lá de casa? Foram aonde todos eles? Foi aonde a casa?
Hoje lembro essas noites com saudades de aconchego, como os únicos momentos que tive a …

A árvore que nunca soube ser jangada

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Veio o vento e abanoupequena árvore para o lado direito. E depois veio a chuva colocar peso no lado esquerdo. O homem na impaciência de soltar o arado deu-lhe um toque mais para a frente. As chuvadas de Inverno amoleceram-lhe a terra por trás.
Caiu? Não. Forças contrárias anulam-se.
A árvore permaneceu de pé. Mas esqueceu a orientação que a Natureza lhe dera ao nascer. Desaprendeu o lado mais favorável do seu perfil. Deixou de querer escolher.
Quem a vê hoje não faz ideias da grande árvore que poderia ter vindo a ser. Não passa de um insignificante arbusto enfezado e quebradiço, mal sustido pelos ramos e raízes que o prendem à vida.
Nalguns dias a árvore queixa-se por não ter nascido numa estufa. Noutras ocasiões maldiz o jardineiro que tão mal a semeou, que tão adverso lugar escolheu para a trazer em flor.
Nem o sol, nem os passarinhos do campo, nem as papoilas lhe alegram os dias. Pensa em tudo aquilo a que estava destinada.
Esquece que enquanto se lamenta as silvas e as urtigas abrem pasto no seu c…

E de como cabanas e asnos são melhores escolhas do que palacetes e cavalos

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Comecei a reparar nas casas mais pequenas. É sempre numa delas que costumo morar. Os detalhes são o meu pano de fundo.
- Tens a certeza que é nesta rua?- pergunto de olhos esbugalhados perante tanto casario imponente - Claro! Olha lá, é aquela. E é a mais desapercebida, escondida e dissonante casa de toda a rua… Ao principio incomodava-me. Sentia-me quase injustiçada. Que diabos! Porque é que tem de ser sempre a mais pobrezinha de todas? Mas agora não. Lido perfeitamente com a situação. Encontro-lhe até um certo encanto peculiar.
- A minha há-de ser aquela ali. - Porque dizes isso? - Porque é a que destoa do conjunto. É aquela aonde à partida ninguém preferiria morar. É a minha. - E não é que é mesmo?? - Eu sabia. :)
Talvez aconteça o mesmo com as outras pessoas... Porque não? É possível que a nossa casa não seja a nossa primeira escolha. Vem-me à ideia a minha mãe que costumava dizer que nunca casamos com a pessoa de quem mais gostamos. Sabedoria antiga.
"Não escolhemos aquilo que temos.&…

A jangada da Medusa

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Salva-vidas há muito lançados no mar deixaram de ser visíveis. Superiores, colegas e demais passageiros estavam dispersos no largo oceano. Na jangada eram muitos os que lutavam pela vida. Relatos posteriores afirmaram que havia uma mulher entre eles... Bem, se havia não se fez notar.
A jangada carregava 150 almas, e ameaçava afundar a cada minuto que passava.
Os melhores lugares eram disputados em lutas terríveis de sangue e morte. Apenas os mais fortes (e os oficiais) logravam uma posição no centro da improvisada embarcação. Os outros, fracos e anónimos, seguiam pendurados nas bordas ou iam ficando pelo caminho como desperdícios lançados fora.
Os desacatos entre eles eram de tal forma que as poucas provisões caíram no mar e perderam-se irremediavelmente. Não tardou muito até que os feridos se amontoassem na jangada. Por toda a parte se ouviam gemidos e lamentos agonizantes.
Os moribundos e os desesperados formavam uma só voz no coro de tamanha desgraça. Mesmo antes de falecerem, já os co…

Um cavalo sem nome

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A beiça entreaberta revelava-lhe os dentes ameaçadores. O focinho encrespado lembrava pergaminho seco. Os olhos vermelhos chispavam, sombreados por uma crina rebelde que ninguém conseguira entrançar. Os flancos acusavam antigas violências, falavam de suplícios e ferros espetados em carne fresca.
No lombo ostentava vergões profundos e cicatrizes de outros tempos. Os cascos gretados tinham há muito perdido as ferraduras, expulsado os cravos cor de ferrugem. Orgulhoso o rabo agitava-se desgrenhado ao vento.
Tinham tentado domá-lo, montá-lo. Quiseram ensinar-lhe os passos estudados dos cavalos amestrados. Alguém havia planeado o futuro que ele iria ter. Deitaram-lhe um laço apertado que o fez estrebuchar. Arrastaram-no para as cavalariças, fizeram uma cama de palha e disseram que ali iria dormir.
Os homens punham-se nele e tentavam equilibrar os corpos débeis nas pequenas selas ridículas de couro e cabedal. Ele resfolegava e atirava-os ao chão. Um a um, os humanos fracos caíam. Batiam-lhe. Cra…