Psicopata- "...designação atribuída a um indivíduo com um padrão comportamental e/ou traço de personalidade, caracterizada em parte por um comportamento antissocial, diminuição da capacidade de empatia/remorso e baixo controle comportamental ou, por outro, pela presença de uma atitude de dominância desmedida. Esse tipo de comportamento agonista é relacionado com a ocorrência de delinquência, crime, falta de remorso e dominância, mas também é associado com competência social e liderança. A psicopatia, descrita como um padrão de alta ocorrência de comportamentos violentos e manipulatórios, é frequentemente considerada uma expressão patológica da agressão instrumental, além da falta de remorso e de empatia",wikipédia



A vida não consegue sempre ser tão bonita quanto gostaríamos. Ainda assim é a única coisa que temos, portanto é preciso aprender a aproveitá-la o melhor possível.” Amália seguia compenetrada destas, e de outras verdades, quando se deparou pela primeira vez com Rafael.

Muito mais velho do que ela, com o charme que os cabelos grisalhos sempre conferem aos homens, Rafael era um belo exemplar masculino, e apesar da aliança reluzente no dedo dele, Amália interessou-se pelo seu sorriso triste e pelos seus olhos de amêndoa por descascar.

Tudo parecia um conto de fadas. Ele separou-se da esposa (que aliás não esboçou o menor movimento para o ter de volta) em menos de um mês de relacionamento com Amália… Em menos de dois meses estavam a morar juntos, com ele a mandar e desmandar no tempo dela, nas escolhas dela e na forma como Amália gostava de levar os dias. Ainda pior do que a sua mania controladora, era a mesquinhez de sentimentos que se adivinhava maior a cada semana que passava.

Amália era uma bonita e interessante mulher de 45 anos, daquelas que possuem a tal coisa capaz de fazer os homens virarem a cabeça à sua passagem. Nunca fora uma beleza estonteante, nem tão pouco era dona de uma personalidade muito sedutora, mas era irresistivelmente sexy, e Rafael sabia disso. O objectivo dele passou a ser minar a autoconfiança de Amália em todas as coisas ao seu alcance. Frases como “Não sabes a idade que tens, Não te podes comparar ás mulheres jovens, Essa barriguinha…, Já foste bonita com certeza!, Eu devia era de ter conhecido quando eras nova!” passaram a fazer parte do vocabulário diário. A Amália valia-lhe a noção do real valor que tinha enquanto mulher, e enquanto pessoa. Fosse ela uma mocinha inexperiente e muito certamente se teria sentido a última das criaturas à face do planeta…

Malgrado a situação ser tudo menos romântica, e apesar de os modos dele em relação a ela terem mudado completamente, Amália permanecia ao seu lado. Rafael dizia abertamente que a trocaria por outra qualquer assim que lhe apetecesse, mandava-a cozinhar, limpar, varrer, arrumar como única forma de poder ficar com ele. Ao menor indício de cansaço, ou de aborrecimento de Amália, Rafael mandava-a embora. “Pega nas tuas coisas e sai!, É tarde? Quero lá saber! Vai-te embora da minha casa!” Ela ia. Ela voltava. Ele continuava no seu jogo perverso de gato e rato, de patrão e empregada grátis, de tirano e serviçal obediente.

Falta de amor-próprio! Falta de auto-respeito! Falta de estaleca! Destas e de outras fraquezas a acusavam os que a conheciam, e destas e outras fraquezas se acusava ela própria. Por mais que fizesse, ele nunca estava satisfeito. Não a via, não a ouvia. Pouco lhe importavam as opiniões, ou os gostos dela. As conversas eram mantidas à volta dos temas que ele escolhia, e as respostas que ela dava numa tentativa de o agradar eram colocadas de parte, desprezadas e remetidas à categoria de “Ouvi qualquer coisa. Disseste alguma coisa?”…

Devido à idade, e também porque fumava em demasia, Rafael perdia aos poucos a virilidade e até disso acusava Amália. Era por culpa dela que ele não conseguia uma erecção capaz, era devido à falta de habilidade dela que ele não se satisfazia como queria. Ela não conseguia excitá-lo, nem tinha competência para dar vida ao seu desejo moribundo e senil. “Mas mamas e cús há muitos por aí! É só chegar à rua e c... não faltam! A minha mulher também foi avisada, não acreditou e olha…

Os anos passaram-se. Isso mesmo “anos”!! Dois, três, quatro anos. Pareciam séculos. Todos os dias Amália dizia para si mesma que tinha de ir embora, que devia deixá-lo e tentar refazer a sua vida de outra forma. Todos os dias dizia isso, mas todos os dias voltava para ele à hora marcada e depois dos telefonemas obrigatórios da praxe. “È porque me preocupo contigo. É porque quero saber se estás bem. Se não gostasse de ti não me importava com o que fazes, nem por onde andas, não achas?” Não, não achava! Não achava mas deixava andar… Dentro dela a esperança e a alegria iam morrendo. Aos poucos Amália tornava-se ainda mais velha do que ele. Sentia-se uma senhora idosa na idade da reforma. Era como que uma rosa à qual fossem arrancando desapiedadamente as pétalas, uma a uma.

Porquê? Quando não se sabe vá lá… Quando não se tem noção, vá lá. Mas ela não! Ela sabia! Ela tinha noção! Desculpava-se com um “Mas nem tudo é mau. Temos momentos bons também. Ele não tem culpa de ser assim. Faz parte do feitio dele.” Amália não era uma mulher antiquada, não tinha a cabeça cheia de valores ultrapassados, nem era prisioneira de regras religiosas ou outras condicionantes justificáveis de tamanha atitude de negligência para consigo mesma. Então porquê?

Quantas Amálias por aí? Quantos Rafaeis à solta? Como lobos farejam as suas presas mais vulneráveis, aquelas que têm receio de deixar os outros tristes, aquelas que têm pena de ferir sensibilidades, que se condoem com olhos de carneiro mal morto à chapada. Fogem de mulheres fortes e resolutas. A essas apelidam-nas de brutas, rudes, masculinas. Preferem aquelas que como a Amália se vergam, se curvam, se anulam. Homens assim não se unem verdadeiramente a ninguém. Representam perpetuamente vários papéis no palco das suas tristes vidas. Encarnam e desencarnam esta e aquela personagem de acordo com o que as circunstâncias lhes pedem no momento. Não gostam de ninguém, a não ser de si mesmos. São egoístas, manipuladores, mentirosos, infiéis, quase sempre desonestos e dados a comportamentos viciosos. Nalguns casos adoptam mesmo atitudes criminosas e ilegais. A quem os vê de fora parecem indivíduos interessantes, civilizados, muito bem falantes e melhor educados. A quem priva com eles parecem monstros, vampiros sanguinários eternamente esfomeados de energia alheia.


Amália bonita, ganha coragem e sai daí! Fecha a porta atrás de ti, ou deixa-a aberta. Mas salva-te, e salva contigo o direito a sonhar, a vontade de ser livre. Vive, Amália! Vive! E guarda no peito tudo o que aprendeste em meio ao sofrimento. Nada é inútil se funcionar como lição.

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