"Sem lenço, e sem documento..."



Mudaram-na mais uma vez.
E eu bem que a tinha avisado…
Choros e mais choros,
Gritos e tantos gritos…
Aqueles olhos verdes serenos aonde vive tanto desassossego.
Os cabelos que eram louros e são escuros agora.
As lágrimas redondinhas, transparentes.
E os dias da semana na ponta da língua!
Minha querida!
Hoje que dia é?
E amanhã?
Sabes os dias todos, viva!
Não chores meu amor, não chores.
Meninas crescidas falam.
Sabes falar.
Olha como dizes bem as cores, e contas até dez!

Outra vez novas amigas e uma cama diferente.
Outros nomes para perceberes.
Será que mandaram a boneca com ela?...
Como se chama a tua boneca?
E era Agatita, Dora Explorador, Noa…
E era o macaco e o cão.
Que lhe tenham mandado a boneca, por favor!
Minha princesa…

Olho para ela e é ainda o bebé de há vinte anos atrás.
A curva arrebitada do nariz pequenino.
As covinhas no rosto redondinho.
Os beijinhos…
Deus, porque és ruim para a minha menina?
Porquê?
Não é justo tanto sofrimento assim!
Nossa senhora do céu,
Já que és madrinha dela,
Não a faças chorar.
E se és mesmo a mãe de todos nós
Fá-la sossegar.
Diz-lhe que não está sozinha,
Ensina-lhe uma nova cantiga,
Mostra quanta ternura o teu coração abriga,
E faz com que ela encontre por fim o seu lugar.


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