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A mostrar mensagens de Março, 2018

Complexo de mim

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Ermelinda sente a cabeça a latejar. Encosta a fronte à vidraça fria e deixa-se ficar quietinha, a ver o mundo rolar. Por muito que não quisesse, só consegue pensar “Que grande perda de tempo! Que grande perda de recursos!”
Passavam-lhe na ideia os anos em que o pai trabalhara em prole da família, também em prole dela portanto. A quantidade de vezes em que a mãe se privara do seu justo quinhão de comida para que ela pudesse medrar, vingar. As leituras, o dinheiro gasto em mil e um livros de auto-ajuda, em revistas e periódicos. Pesquisas… tantas que fizera! Planos… tantos que fizera!... “Perda. Perda de tempo.” Tudo se resumia àquela verdade crua e imutável, independente de considerações e de opiniões: era maluca. Maluca, e pronto.
Porque em muito pequena não fora capaz de fazer as ligações precisas entre neurónios não conseguia agora assimilar correctamente as mensagens dos transmissores. Interiorizara valores fictícios e dera-lhes importância de verdades. Perdera-se na imaginação e não …

Posso ir contigo?...

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Leva-me contigo. Vamos aonde tudo é possível e o algodão doce é mesmo feito de açúcar, e os caramelos ainda pegam nos dentes, e as rosas continuam a ter espinhos mas são bonitas de morrer. Dá-me a mão, e leva-me. Leva-me contigo…
Pouco importa se não levamos mapa nem sabemos de geografia, nem se a terra é mais redonda nuns dias do que noutros. E mesmo que faça frio, tanto frio, e mesmo que faça sol e haja calor, e até se o céu estiver riscado de relâmpagos e trovões, leva-me ainda assim.
Enquanto o coração bate e as pernas respondem, e os olhos sonham e a alma vibra. Enquanto temos sangue e temos força. Antes de ser tarde para mais nada. Antes que seja tarde demais.
Lá fora ainda é claro, mas debaixo das árvores a noite vem mais cedo. As florestas são cheias de sombras e de recantos escuros. E vultos escondidos espreitam atrás das árvores. Leva-me… Perdemos os sapatos e estamos descalços porque fugimos há tempo demais. E as nossas roupas são farrapos com sombras do que foram um dia. Os cabelos…

Esqueceu-se de me levar...

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Os olhos estavam inchados de chorar, e do nariz encardido escorria um fio de ranho transparente, quase líquido. As faces do garotinho eram trigueiras e bochechudas. Se não fosse pela roupa esfarrapada, e pelos sapatos descolados pareceria uma criança comum, daquelas que choram sempre que caem no parque infantil. No entanto em toda a fisionomia se distinguia uma tristeza tão, mas tão grande que parecia não caber inteira dentro do corpo franzino. - Porque choras?- quis saber eu. Silêncio e mais silêncio. Fungadela e outra fungadela. - Não estejas assim! Doí-te alguma coisa? Fizeram-te mal? Diz! O que foi?- nunca soube lidar bem com lágrimas. Há qualquer coisa nelas que me faz recordar outros tempos, outras pessoas que choravam… - Não tenho ninguém.- respondeu por fim. - Ninguém? Como assim, não tens ninguém? Aqui ao pé de ti? - Não. Não tenho ninguém no mundo.- e o choro de pequeno animal batido voltava. Seria órfão o pobrezinho?... - O teu pai e a tua mãe? - Ele morreu, faz mais de um ano.- na v…

Procrastinação

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E viu então que a  sua vida só daria certo, se fosse verdade tudo aquilo em que acreditara. Tudo aquilo que sabia agora ser impossível. Não haviam acasos da sorte, Nem coincidências salvadoras. Tão pouco era real existirem pessoas âncora às quais pudesse segurar-se para não afundar. Ganhar na lotaria estava fora de questão. Não! Histórias da carochinha e truques de ilusionismo barato, era ao que se resumiam todos esses sonhos antigos.
O que era bem real era a coragem, a força de vontade e o dinamismo. O que fazia o mundo andar de facto era o empenho, o trabalho e o espírito empreendedor. Tudo o que nunca tivera. Tudo o que não tinha. Por isso…
Baixou a cabeça e engoliu as lágrimas. Olhou por entre as farripas ruças dos cabelos. Tantas pessoas que passavam! Como eram tantas! A que iam? Porque continuavam a arrastar as pernas no fandango inútil da vida?
Era por isso que não saía do mesmo lugar. Faltava-lhe tudo o que todos tinham. Faltava-lhe a energia de fazer acontecer.
Sabia o sermão na ponta da língua, E …

Prisioneiros de verdade são os que ficam, quando a porta se abre para irem

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Vieram buscar-nos hoje. Levaram-nos e examinaram-nos como se fossemos novos espécimes com interesse científico. Depois queriam separar-nos… Eu disse que sim. Aprendi a mentir no cativeiro. De noite peguei a tua pequenina mão bem juntinho à minha, e fugimos. Também aprendi a fugir no cativeiro.
Quando estávamos presos tínhamos paredes conhecidas à nossa volta. Agora soltos, o mundo parece grande demais para nós. O céu aqui fora é bem mais alto do que o tecto de antigamente. Mas por muito diferente que seja deste lado, É como se ainda estivéssemos lá dentro.
Quiseste correr. Pedi-te calma. Correr cansa mais do que apenas andar. Além disso, não sabes correr tu. Eu aprendi em tempos antigos… Mas desaprendi quando me esqueci de caminhar. Porque me encarceraram.
Olho para trás. Não devia… Vejo uma moldura de escuro. Sinto o frio. Há algo de terrível no apelo escancarado de uma porta fechada. Solto-te da mão… És livre de ir. Vai! Talvez afinal seja tarde para eu ir mais além… Porque demoraram tanto tempo para nos salva…

Os meus pais são sem abrigo

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Os meus pais são sem abrigo, e vêm-me visitar de vez em quando. Trazem o cabelo comprido, roupa para lavar e muitas histórias.
Desta vez estiveram numa mata e tomaram banho numa lagoa. Pescaram, viram nascer o sol.
Voltam sempre porque eu estou aqui. Dizem que sou a raiz que os prende. Eu sei que gostam de mim.
Quando me perguntam aonde vivem os meus pais eu digo que estão por todo o lado. Estar por todo o lado é mais bonito do que não ter lado nenhum.
E são felizes eles. Deixaram para trás as contas por pagar, a renda da casa, os juros do empréstimo ao banco. Declararam falência. Fiquei com as mobílias, as loiças, as flores do jardim. Daqui levaram só a vontade louca de correr ruas e avenidas.
Estão a ficar velhos, os meus pais. Já os cabelos brancos tomam conta dos fios morenos, E as rugas marcam os rostos tisnados de sol e vento. Mas eu olho para eles e vejo o mesmo casal de jovens que conheci quando nasci. Indomados, Desajustados, Estranhamente deslocados.
São sem abrigo. Encontraram-se de novo consigo me…