Complexo de mim





Ermelinda sente a cabeça a latejar. Encosta a fronte à vidraça fria e deixa-se ficar quietinha, a ver o mundo rolar. Por muito que não quisesse, só consegue pensar “Que grande perda de tempo! Que grande perda de recursos!”

Passavam-lhe na ideia os anos em que o pai trabalhara em prole da família, também em prole dela portanto. A quantidade de vezes em que a mãe se privara do seu justo quinhão de comida para que ela pudesse medrar, vingar. As leituras, o dinheiro gasto em mil e um livros de auto-ajuda, em revistas e periódicos. Pesquisas… tantas que fizera! Planos… tantos que fizera!... “Perda. Perda de tempo.”
Tudo se resumia àquela verdade crua e imutável, independente de considerações e de opiniões: era maluca. Maluca, e pronto.

Porque em muito pequena não fora capaz de fazer as ligações precisas entre neurónios não conseguia agora assimilar correctamente as mensagens dos transmissores. Interiorizara valores fictícios e dera-lhes importância de verdades. Perdera-se na imaginação e não conseguia saber qual a realidade. Tivera os tais apetites canibais, e defecara as tais substâncias de insensatez, fora castrada no seu narcisismo, amedrontada na sua pequenez de menina infeliz. Por isso os seus miolos não funcionavam como deviam.

Essa era a razão de tanto negrume em seu redor. E era também a explicação do sol brilhante que de vez em quando lhe abrasava as faces. Não prestava nem para ser triste, não tinha valia para ser contente. Porque nela nada era o que parecia. Nem as lágrimas, nem as alegrias. Tudo lhe vinha da maldita doença da cabeça.

De vez em quando (como naquela altura), a Ermelinda equacionava muito seriamente a hipótese de pôr fim à vida. Mas nem isso lhe assistia. Porque aprendera já que as ideias suicidas faziam parte da sua maleita. Dirigia contra ela ofensas que imputava a outros, sem se atrever a confrontá-los com as suas opiniões. Nem se dava conta de que era isso que sucedia. Mas era. O seu cérebro estava numa mistura caótica de noções e de terrores. Dentro de si escondia pessoas que tinha misturado com outras pessoas. Havia mortos que julgavam que estavam vivos, e alguns viventes a quem ela já tinha aniquilado. Mas nenhum deles sabia. Ainda apareciam por todo o lado.

Pobre Ermelinda… Se ao menos eu pudesse ajudar!

Ela recua espavorida porque se convence que sou uma voz antiga. Já os olhos se lhe turvam em agonia, já se acredita ainda mais maluca, de todo perdida. E eu que só queria ser prestável estaco surpreendida. Surpresa porque lá atrás alguém me chama Ermelinda. Sei que não é esse o meu nome, mas nomes são coisa de tão pouca valia…
Ela grita nos meus sonhos e reconheço o esganiçado daquela voz. Ao meu lado na cama alguém resmunga e me dá um encontrão: “Deixas-me dormir ou não?” Ah, bom! Era um sonho!...

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