Esqueceu-se de me levar...

Os olhos estavam inchados de chorar, e do nariz encardido escorria um fio de ranho transparente, quase líquido. As faces do garotinho eram trigueiras e bochechudas.
Se não fosse pela roupa esfarrapada, e pelos sapatos descolados pareceria uma criança comum, daquelas que choram sempre que caem no parque infantil.
No entanto em toda a fisionomia se distinguia uma tristeza tão, mas tão grande que parecia não caber inteira dentro do corpo franzino.
- Porque choras?- quis saber eu.
Silêncio e mais silêncio. Fungadela e outra fungadela.
- Não estejas assim! Doí-te alguma coisa? Fizeram-te mal? Diz! O que foi?- nunca soube lidar bem com lágrimas. Há qualquer coisa nelas que me faz recordar outros tempos, outras pessoas que choravam…
- Não tenho ninguém.- respondeu por fim.
- Ninguém? Como assim, não tens ninguém? Aqui ao pé de ti?
- Não. Não tenho ninguém no mundo.- e o choro de pequeno animal batido voltava. Seria órfão o pobrezinho?...
- O teu pai e a tua mãe?
- Ele morreu, faz mais de um ano.- na vozinha infantil havia um não sei quê de desespero que me arrepiou.
- O teu pai morreu? Estou a perceber… Também não tenho pai há muito tempo. Mas então e a tua mãe?
- Ela saiu de casa. Muito antes de ele morrer.
- Ah… E tu foste com ela?
- A minha mãe deixou-nos aos dois. A ele, e a mim.
Chorava baixinho, num gemido desconcertante e angustiado. Há mais de um ano… e a mãe tinha ido embora antes disso… Já se tinha passado muito tempo…
- Mas vives com alguém, não vives? Quer dizer com algum adulto, certo?
Abanou solenemente a cabecita numa negativa envergonhada.
- Vives sozinho?
- Com o Piloto.- e explicou melhor ao ver que eu não entendia- O Piloto é o meu cão. Era… Morreu hoje de manhã. Estava muito velhinho o meu Piloto querido…- as lágrimas escorriam-lhe grossas pelo rosto franzino, indo morrer junto à camisola desfiada de lã.
Eu não sabia o que dizer. Pelos vistos aquele menino tão pequeno vivera sozinho por mais de um ano, acompanhado por um velho cão que agora tinha morrido… Estava só no mundo. Seria possível? Como podia acontecer algo assim nesta nossa época de assistência social, e de protecção de menores? Sozinho?
- E agora?- quis ele saber olhando para mim.
Tinha-o procurado no seu mundo. Tinha-o questionado e levado a que me abrisse o coração. Estava no direito de querer saber: E agora?
- Vens comigo.- estendi-lhe a mão que ele agarrou numa sofreguidão de não ser abandonado de novo. Levava-o para minha casa, pois claro! Pelo menos até saber aonde me dirigir, com quem falar, o que fazer. Tão pequenino! Tanto tempo sozinho! Era de admirar como ainda confiava nas pessoas, como se deixava conduzir docilmente… Apenas as fungadelas teimavam em lhe fustigar o peito, e as lágrimas persistentes escorriam cristalinas.
Tanto para lhe perguntar! Tantas coisas para saber! Um universo de porquês e de comos revolvia-me o espírito. Depois! Agora só importava levá-lo e cuidar dele até que o choro adormecesse.
À noite, antes de lhe aconchegar o cobertor com um beijinho cheio da ternura que há tanto tempo faltava, notei que rezava.
- Desculpa. Não vi que estavas a rezar.
- Estou a pedir um milagre à Nossa Senhora.
- Sim? E que lhe pedes tu, posso saber?
- É que a minha mãe esqueceu-se de me levar… Saiu com tanta pressa que se esqueceu de mim…Peço à Senhora do Céu para que ela se lembre, e me venha buscar.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

"Vamos aquecer o sol"

Não sei valsar devagar

O homem desesperado