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A mostrar mensagens de Abril, 2018

Um homem uivava, triste chorava

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No negrume da noite, o monge uivava. Na fúria da tempestade “-Perdoa, porque peco!”, berrava.
Os cabelos colados ao crânio macerado. Os arremedos de roupas eram andrajos. As sandálias desaparecidas na rudeza dos penhascos.
Os pés gretados de sangue com sujidade do monte. As pobres mãos erguendo-se esqueléticas, Pondo-se uma na outra patéticas, numa prece tremida.
Todo ele escorria vento e trovoada.
As pernas fraquejavam… Os relâmpagos rasgavam o horizonte, A lama revelava as entranhas do campo. Desventrada, a montanha despia-se de tripas e intestinos. A natureza sangrava numa hemorragia interna.
Chorava, o pobre monge. O firmamento insensível assistia. Podia acabar o mundo  que ninguém via nada. Um homem que morre é menos um homem que vive.
Pedia… Gritava… - Perdoa, porque peco! Punhos batiam no peito ossudo como tambores selvagens. Os joelhos rasgavam pele e músculo, de rojos na terra.
Pobre, Miserável neto de Eva caído em desgraça… Ergue-te monge negro, escorpião do deserto! Certamente que estás perdoado! Que…

Um sorriso de Charlot

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Tu que me olhas sorrindo,                                                           Qual é a paranóia?                                                              Aonde o inferno em que vives?
À medida que conheço a loucura dos outros, e a minha, Vou ficando mais sozinha. O mundo vai sendo pequenino.
Tenho saudades de quando não sabia… Se alguém me sorria era bom! Era sim!
Agora cada olhar é um desaire. Estranhos que choram por dentro, Ou fingem ter sol no coração… Tristes sapos é o que são.
Insistem em ver neles seres bonitos? Pois eu não.
Tolos a quererem comer e guardar os bolos… Julgam-se senhores de boa voz Mas são apenas sofredores Em busca da teta perdida… Lordes em fralda de camisa…
Fariam rir se não fizessem chorar!... Como a maioria de nós.



Eu volto para te buscar

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- Fica aqui. Espera que um dia volto para te buscar. Confia.- e afastou-se devagarinho. A menina ficou. Era obediente. Tinham-lhe ensinado a ser boazinha. Por isso esperou. Engoliu as lágrimas entre soluços. Olhava o caminho à espera que a espera terminasse. - Eu volto.
Mas passaram muitos dias depois desse tal dia. E passaram anos, e depois ainda mais outros anos. Crente de que a menina se encontrava à espera, ela continuava a vida. Mortificava-a saber que dificilmente seria capaz de voltar. O destino trouxera-a para bem longe de casa. Cruzara um largo oceano e perdera-se do pátio da escola africana.
Via em sonhos, que mais pareciam pesadelos, o exacto local aonde deixara a criança. Imaginava-a sentada, quieta, sossegadinha, de esperança acesa no passar inútil do tempo. O que teria sido feito da menina?- atormentava-se e sentia-se culpada.
De noite parecia-lhe amiudadas vezes ouvir um choro infantil, um pedido murmurado:- Vem! Vem-me buscar! Podia lá!... Além disso prometera que voltaria mais …

O homem desesperado

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Queres que tudo pare? Tens vontade que o tempo mude? Apetece-te fechar os olhos e estar num outro lugar? Acontece-te pensar que não suportas mais?
Para ti o mundo está todo esquisito?… Conheces a sensação de que nada parece real? Tens a impressão de estares a alucinar?…
Sentes-te por vezes tão, mas tão triste como se fosses rebentar? Ouves palavras sussurradas no barulho que se cala? E distingues gritos de dor quando a noite chega, ou quando a chuva cai? Choras? Choras de madrugada?
Tens alguma esperança? Nem que seja uma simples esperança, esperança infundada, esperança de criança?
Acreditas? Acreditas ainda que te digam que deliras? Acreditas num qualquer faz-de-conta que sim?
Estás habituado? És um conformado? Julgas que não há mais além disto? Aceitas os dias sempre da mesma maneira? Foste idoso a tua vida inteira?
Se estás fora da festa, e nenhum consolo te resta, e ardes no inferno…
Se não tens nem um só amigo, E perdeste aos dados o chão deixado pelos antigos, o chão que supostamente era eterno…

Um melro que não queria fugir

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Tantas vezes penso, E dou por mim a imaginar como seria eu, Se não fosse assim?
Se não me tivessem moldado, forçado, espartilhado, Se não tivesse tido mordaças na boca, Quem estaria destinada a ser?
Porventura alegre, nervosa? Comunicativa, tímida, generosa? O que há dentro de mim?
Vem-me a esperança de que podia ter sido melhor, bem melhor…
E convenço-me de que um dia venho a ser de facto eu. Quebro as amarras e vergo as grades, Desço da torre malvada pendurada numa trança.
E nessas alturas de triunfo e revolta Dou-me conta que sou o que de mim fizeram, E que não haveria eu sem ser assim.
Ou seria uma folha em branco, Um livro sem páginas escritas. Uma louca ou uma insana.
Vejo que sou, Apenas sou. E que me invento com a linguagem que aprendi a usar. Papagaia sem fala, Perdida, Largada ao vento.
Tantas vezes penso!... Mas penso dentro da cela que não vou abrir, Então como me atrevo a resistir?
Com que direito digo que tenho alguém em mim?