Um homem uivava, triste chorava




No negrume da noite, o monge uivava.
Na fúria da tempestade “-Perdoa, porque peco!”, berrava.

Os cabelos colados ao crânio macerado.
Os arremedos de roupas eram andrajos.
As sandálias desaparecidas na rudeza dos penhascos.

Os pés gretados de sangue com sujidade do monte.
As pobres mãos erguendo-se esqueléticas,
Pondo-se uma na outra patéticas, numa prece tremida.

Todo ele escorria vento e trovoada.

As pernas fraquejavam…
Os relâmpagos rasgavam o horizonte,
A lama revelava as entranhas do campo.
Desventrada, a montanha despia-se de tripas e intestinos.
A natureza sangrava numa hemorragia interna.

Chorava, o pobre monge.
O firmamento insensível assistia.
Podia acabar o mundo  que ninguém via nada.
Um homem que morre é menos um homem que vive.

Pedia…
Gritava…
- Perdoa, porque peco!
Punhos batiam no peito ossudo como tambores selvagens.
Os joelhos rasgavam pele e músculo, de rojos na terra.

Pobre,
Miserável neto de Eva caído em desgraça…
Ergue-te monge negro, escorpião do deserto!
Certamente que estás perdoado!
Que Deus ousaria ignorar um  filho dilecto,
Deixá-lo roto e nu,
Sofrê-lo triste e atormentado?


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