Um melro que não queria fugir




Tantas vezes penso,
E dou por mim a imaginar como seria eu,
Se não fosse assim?

Se não me tivessem moldado, forçado, espartilhado,
Se não tivesse tido mordaças na boca,
Quem estaria destinada a ser?

Porventura alegre, nervosa?
Comunicativa, tímida, generosa?
O que há dentro de mim?

Vem-me a esperança de que podia ter sido melhor, bem melhor…

E convenço-me de que um dia venho a ser de facto eu.
Quebro as amarras e vergo as grades,
Desço da torre malvada pendurada numa trança.

E nessas alturas de triunfo e revolta
Dou-me conta que sou o que de mim fizeram,
E que não haveria eu sem ser assim.

Ou seria uma folha em branco,
Um livro sem páginas escritas.
Uma louca ou uma insana.

Vejo que sou,
Apenas sou.
E que me invento com a linguagem que aprendi a usar.
Papagaia sem fala,
Perdida,
Largada ao vento.

Tantas vezes penso!...
Mas penso dentro da cela que não vou abrir,
Então como me atrevo a resistir?
Com que direito digo que tenho alguém em mim?


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