A jangada da Medusa





Salva-vidas há muito lançados no mar deixaram de ser visíveis. Superiores, colegas e demais passageiros estavam dispersos no largo oceano. Na jangada eram muitos os que lutavam pela vida. Relatos posteriores afirmaram que havia uma mulher entre eles... Bem, se havia não se fez notar.

A jangada carregava 150 almas, e ameaçava afundar a cada minuto que passava.

Os melhores lugares eram disputados em lutas terríveis de sangue e morte. Apenas os mais fortes (e os oficiais) logravam uma posição no centro da improvisada embarcação. Os outros, fracos e anónimos, seguiam pendurados nas bordas ou iam ficando pelo caminho como desperdícios lançados fora.

Os desacatos entre eles eram de tal forma que as poucas provisões caíram no mar e perderam-se irremediavelmente. Não tardou muito até que os feridos se amontoassem na jangada. Por toda a parte se ouviam gemidos e lamentos agonizantes.

Os moribundos e os desesperados formavam uma só voz no coro de tamanha desgraça. Mesmo antes de falecerem, já os corpos eram despejados no oceano. Ninguém se podia dar ao luxo de desperdiçar espaço, e os que morriam não necessitavam de permanecer no estrado.

Cada vez era menor o número de náufragos. Esperavam ajuda de algum navio. Os olhos cansados, vermelhos de sal e lágrimas perscrutavam o horizonte.

Veio a fome, e veio a sede. E chegaram ao fim os últimos biscoitos salgados, e terminou o vinho. O que não diminuía era a quantidade de cadáveres. Morria-se agora de tudo um pouco. De tristeza também, de descrença e de desamparo.

Os homens estavam incapazes de distinguir o dia da noite. Tudo para eles era a mesma amálgama de sofrimento.

Alguém teve a ideia de comer os mortos. Mas os dentes não conseguiam arrancar a carne dos ossos, e foi à faca que lascas grossas de carne humana foram cortadas para quem quisesse. Até os oficiais, os homens de leis e os intelectuais da ciência comeram. Era isso, ou deixar-se morrer de inanição em alto mar… Por isso alimentaram-se dos mortos, uma vez que essa matéria prima não faltava.

O medo imperava entre os poucos que agora estavam na jangada. Dos iniciais 150 passageiros, sobravam ao fim da primeira semana apenas 28.

Tinham-se passado 13 dias quando a salvação chegou. “Argus”, assim se chamava o barco que resgatou os 15 sobreviventes da fragata Medusa. Desses 15, 5 morreram a bordo do barco salvador devido à forma exagerada como se alimentaram após tão duro jejum. Ao todo sobreviveram 10 homens. Eram os últimos do grande desastre.

A tão apregoada civilização, com os seus ditames e regras escrupulosamente concebidos para salões de baile, é rapidamente abandonada quando a sobrevivência se põe em causa. Ninguém quer morrer, enquanto puder viver. Mesmo quando viver é pouco mais do que prolongar a agonia.

Bendita seja a esperança… É ela que nos conduz.

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