Cheirinho a canela





Foram muitas lágrimas, muito sal e muito fel.
Alguns dias não tiveram sol.
Muitas vezes caiu neve no Verão.
Alturas houve em que a insensatez reinou, e até o tempo rolou fora de ritmo.
E existiu desamparo, ranger de dentes e arder de chagas abertas em ferida.

Sim, houve tudo isso.
Houve até mais do que isso.

Eram gigantes que esmagavam castelos de trazer por casa.
E fadas que perdiam o condão.
Anjos que se transformavam em dragões.
Florestas que vistas de perto não passavam de capim ressequido.
E cacimba mal lambida com línguas ásperas de sede e cansaço.
E pó.
E lama.

Sim, foi assim.
Pois foi.

E o ar quente do deserto queimou o oásis da esperança que não chegou a acontecer.
A desgraça fez-se presença e esmagou as crenças antigas.
Nasceram tristes as crianças.
Mulheres abriram as veias na praia aproveitando a maré que vinha.
E homens penduraram-se pelo pescoço em cordas cor de ferrugem e sangue.

Não esqueci nada.
Não deitei fora esse testamento que herdei em vida.

Mas houve vagar e leituras ao serão.
E fritinhos na mesa quando era Natal.
Tínhamos luzinhas de mil cores.
E brincávamos com mercearias no chão florido da sala.
E a magia era vermelha.

Obrigada.
Obrigada aos dois pelo cheirinho a canela.


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