Meu Moçambique




De longe chegam os brados de um tempo que mal vivi.
De longe chegam os ecos de uma história que quase foi minha.

Parece que escuto os serões entre violas e batuques…
Parece que vejo o fumo dos cigarros subindo devagar nos ares…

E são muitas as cabeças dos homens em torno da mesa, e muitos os copos de cerveja gelada.
Discutem, conspiram, conversam e riem.
Dizem poesia e sabem sobre livros censurados.
Dançam os ritmos antigos.
Esconjuram espíritos amaldiçoados.

Falam de um país meu, mas que se perdeu para mim.

Gravatas e fatos, balalaicas e mangas de camisa arregaçadas.
Alguns chapéus moles e desabados atirados pelos cantos dos sofás.
Rostos claros, escuros de carvão ou castanhos como canela, outros não tão definidos assim.
Velhos e moços.
Doutores, homens de letras, escriturários, comerciantes, poetas.
Tocadores de mil instrumentos sem fim.

Que homens aqueles?
Amigos lá de casa?
Foram aonde todos eles?
Foi aonde a casa?

Hoje lembro essas noites com saudades de aconchego,
como os únicos momentos que tive a salvo do medo.

Pai, papá, paizinho…

Eu envaidecida,
acordada fora de horas
ouvindo os planos gigantes da grande gente crescida!…

Moçambique…
Sonho de africana cacimba…
Mãe negra de mim, morena menina…

Aquela lá, terra de mil cores,
aquela lá era minha!

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