Para onde vão as mães quando fogem?




A Amélia chorava baixinho.
Baixinho acreditava que a mãe voltava.
Baixinho acreditava que a mãe vinha.
E a mãe não vinha…

tic- tac, tic- tac...

Coitadinha da Amélia,
da Amélia pequenina.

A saia de xadrez nas costas da cadeira...
Os óculos na mesinha de cabeceira....
As sandálias ligeiramente deformadas nos joanetes...

As coisas vazias de miolo.
As coisas vazias da mãe que a deixara sozinha.

tic- tac, tic- tac...

Ainda de manhã ela estivera ali.
Passara a ferro o vestido vermelho com arabescos brancos.
Até lhe ensinara um truque para quando a roupa não enxugasse na corda…
Bastava embrulhá-la numa tolha e torcer…
Para um dia quando fores crescida

Já saberia que ia embora?
Resolvera na hora?

tic- tac, tic- tac...

-A mãe?
-Escondida.
-No capim?- os olhitos escuros a perfurarem a altura enorme do capim na noite africana.
-Quem sabe? É maluca.
-Maluca, a mãe?- não, não era! Era a mamã.

Talvez se usasse as palavras de criança, ela voltasse…
Sempre tinham tido uma linguagem só delas,
que não era a dos outros.
Como podiam conversar sem aquele antigo falar?

tic- tac, tic- tac...

Quantos anos se passaram desde aquele dia!!!
Quarenta e sete, toma o canivete?
Quarenta e oito, prova o biscoito?
Foi quando a mãe morreu pela primeira vez.


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