Um cavalo sem nome





A beiça entreaberta revelava-lhe os dentes ameaçadores. O focinho encrespado lembrava pergaminho seco. Os olhos vermelhos chispavam, sombreados por uma crina rebelde que ninguém conseguira entrançar. Os flancos acusavam antigas violências, falavam de suplícios e ferros espetados em carne fresca.

No lombo ostentava vergões profundos e cicatrizes de outros tempos. Os cascos gretados tinham há muito perdido as ferraduras, expulsado os cravos cor de ferrugem. Orgulhoso o rabo agitava-se desgrenhado ao vento.

Tinham tentado domá-lo, montá-lo. Quiseram ensinar-lhe os passos estudados dos cavalos amestrados. Alguém havia planeado o futuro que ele iria ter. Deitaram-lhe um laço apertado que o fez estrebuchar.
Arrastaram-no para as cavalariças, fizeram uma cama de palha e disseram que ali iria dormir.

Os homens punham-se nele e tentavam equilibrar os corpos débeis nas pequenas selas ridículas de couro e cabedal. Ele resfolegava e atirava-os ao chão. Um a um, os humanos fracos caíam.
Batiam-lhe. Cravavam-lhe as esporas até o sangue jorrar solto. Rasgavam a chicote o seu pobre corpo mutilado. Queriam-no submisso, mas ele nascera selvagem.

Quando finalmente cansados desistiram de o vergar, deram-lhe um banho de sal e vinagre para as feridas não infectarem. Os homens tinham dessas bondades… E mandaram-no embora. Correra mais veloz do que o vento. Fora de volta à sua pradaria, à manjedoura natal.

As ervas altas não lhe pareciam tão bonitas quanto dantes, e as papoilas bravias já não o faziam apaixonar-se.
As éguas fugiam do seu aspecto feroz, e há muito que ele não conseguia descansar a cabeça num cangote suado. Tinham-no desgraçado.

Mas tinha sabido resistir e mantivera-se vivo. Não se vendera por um pouco de feno. Nem aceitara afectos vindos de mãos traiçoeiras, garras mal disfarçadas.
Continuava garanhão, ainda que o seu harém estivesse agora vazio. Era ele, o cavalo sem nome. E só por isso já valia a pena correr.

Novamente ninho ambulante de pulgas, e incubador de mil piolhos livres como ele. Indomável! A respirar. Sim, a viver.


Comentários

Mensagens populares deste blogue

"Vamos aquecer o sol"

O homem desesperado

Cheguei a Casa