Maria Rosalinda (Rosalinda da vida)



Rosalinda enxugou a lágrima que escorria entornada pelo canto do olho.
Sabia que estava certa quando não acreditava,
Mas algo dentro dela teimava em não entender.
Contrariando todas as evidências, a Rosalinda ainda queria dar uma chance.

Via ela, todos viam, que um mais um são dois.
Sabia ela, como todos sabiam, que de má amostra não se faz boa obra.
Mas…queria tanto poder estar enganada!
E se?...

Rafael não tinha sentimentos.
Era oco, vazio por dentro.
A personalidade não se chegara a estabelecer naquele espírito vagabundo.
Quem pensava que o conhecia via apenas o que ele queria mostrar de si mesmo.
E o que ele queria mostrar não era uma verdadeira mostra, porque de seu nada havia.

Maneirismos, trejeitos, formas de sorrir ou entoação ao falar,
Tudo eram mistificações aprendidas com quem o rodeava.
Amealhava emoções alheias, decorava falas como deixas que guardava consigo até ser oportuno empregá-las.
Até as injúrias, os insultos eram decalcados de outras brigas que não as suas.

Como um balão mal cheio de ar,
Uma peúga desprovida de pé,
Uma tripa a que tivessem subtraído o chouriço, assim era o Rafael.

Tão triste alguém poder viver os seus dias nesse desencanto de formas,
Nessa orfandade de carácter!

Como deixá-lo entregue a si mesmo, se todo ele se consumia num fogo inútil de significado?
Como ter coragem para lhe virar as costas se ele extenuado de tanto se inventar se desfazia no espaço como fumo no vendaval?
A Rosalinda não sabia como fazê-lo.
Em boa verdade, a Rosalinda não estava muito certa de querer fazê-lo.

Ele mentia e dissimulava.
Ela fazia de conta que não via, e desculpava.
Que relação essa?

Qual o tamanho da tristeza de alguém que prefere viver numa fantasia?
Só existem Rafaéis porque existem Rosalindas?
Ou as Rosalindas deste mundo são almas perdidas num poço sem fim?
Cabe-nos a nós olhá-las de lado, menosprezá-las?
Ou devemos tentar perceber até que ponto o coração nos atraiçoa, e faz de nós Rosalindas da vida?



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