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A mostrar mensagens de Setembro, 2018

De mulher a menina

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Os olhos da Florinda assemelhavam-se a lagos de profundas águas verdes. Do verde quieto dessas águas brotavam chispas como fogo ardente.
Era uma mulher quase menina, ao contrário das meninas que estão prestes a serem mulheres. A Florinda decrescia em criancices ,como se lhe batesse no peito um relógio que só anda para trás. Taque-tique, taque-tique...
Cabelos brancos tinha-os aos molhos. Rugas abriam caminho nas faces quase descarnadas. Estava velha. Mas via-se de novo menina no pensar.
Já há um tempo que lhe dava para recordar a mãe. E a mãe aparecia flutuando de braço dado com o pai, os irmãos. Colo,pedia a Florinda. Colo e família, colo e aconchego. Ainda não, escusava-se a mãe e a restante trupe alada.
Tinha de diminuir de tamanho para caber de novo nos braços maternos. Tinha de trocar a roupa escura pelo bibe de renda, se queria fazer sorrir o pai. Os braços enrugados prendiam-se num enrolar de ossos estaladiços e rendilhados. As mãos trémulas mal davam com a casa dos botões. Ná... …

Não peças "Volta para mim"

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Não peças “Volta para mim”… O que em ti há são paredes sólidas aonde me amparo e protejo. O que em ti há é a tranquilidade de um lago ao luar.
Por isso não  peças “Volta para mim”…
Hoje sou como um rio cansado de tanto navegar. Procuro as margaridas desbotadas do nosso tempo de meninos. Quero o doce tiquetaque da quieta monotonia de cada dia que chega ao fim. Preciso a certeza de cada lugar, de cada prateleira ou gaveta. É isso que busco.
Não peças “Volta para mim”. Diz que está tudo bem. Faz de conta que temos amanhã e depois ainda, E que os anos não foram cruéis para nós. Quando eu chorar perdoa a minha tristeza. Quando eu vacilar sê a força na minha fraqueza.
Não  peças “Volta para mim”. Abre a cama e estica os cobertores. Cuida das minhas feridas, cuida das minhas dores. Voltar para ti apenas é tão miseravelmente pouco!... Tão pouco quando comparado ao mundo inteiro que és para mim.